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A ciência do pequeno em busca da maioridade

Anunciada por Feymann em 1959 a nanotecnologia ressurgiu em 1992. Agora, promete revolucionar o estilo de vida.

Na noite de 29 de dezembro de 1959, o físico norte-americano e futuro Prêmio Nobel, Richard Feymann, fez uma palestra que alterou profundamente a imagem do mundo. Após o jantar do encontro anual da American Physical Society, realizado no Hotel Hunting-Sheraton, centro de Pasadena, Califórnia, ele usou aproximadamente sete mil palavras para traduzir idéias que, em princípio, pareciam pura ficção.

Na noite de 29 de dezembro de 1959, o físico norte-americano e futuro Prêmio Nobel, Richard Feymann, fez uma palestra que alterou profundamente a imagem do mundo. Após o jantar do encontro anual da American Physical Society, realizado no Hotel Hunting-Sheraton, centro de Pasadena, Califórnia, ele usou aproximadamente sete mil palavras para traduzir idéias que, em princípio, pareciam pura ficção.

O tema da palestra, Há muito espaço lá embaixo ( There\’s plenty of room at the bottom ), pareceu hermético mesmo a uma platéia de físicos. E não foram poucos os que a tomaram por mais uma das brincadeiras de Feymann, conhecido por seu humor criativo.

Estrela entre seus pares, Feymann foi brindadocom ruído de talheres e cubos de gelo chocando-secontra copos de uísque, em meio à fumaça densa de charutos.

Quando a onda de aplausos cessou e o último dos físicos semi-embriagados acomodou-se em seu assento, Feymann começou: Gostaria de falar sobre uma área onde pouca coisa tem sido feita… o que pretendo é referir-me ao problema da manipulação e controle de coisas em pequena escala. O Sputnik, lançado dois anos antes, era motivo de comentários, sugerindo a miniaturização de sistemas. Mas não foi a isso que Feymann se referiu ao falar de coisas em pequena escala Isso é nada, rejeitou. É um dos passos mais primitivos, intermediário em direção ao que pretendo discutir. E então atirou sua idéia à mesa: Por que não podemos escrever todos os 24 volumes da Encyclopaedia Britannica na cabeça de um alfinete?

Os ouvintes riram. Feymann continuou: A cabeça de um alfinete tem uma dimensão linear de 1/16 de polegada. Se você ampliá-la em 25 mil diâmetros, a área da cabeça do alfinete será equivalente às páginas da EncyclopaediaBritannica. Então, tudo o que é preciso fazer é reduzir o tamanho de tudo o que está na enciclopédia 25 mil vezes.
Possibilidade, brincadeira ou só um ligeiro excesso de álcool?
O argumento seguinte mostrou que Feymann falava a sério. Na escala do encolhimento proposto, cada uma das letras estaria reduzida a uns dez átomos, tamanho finito, mensurável e por isso mesmo possível de ser manipulado.,Feymann deu outros exemplos de consistência de suas propostas. E elas se espalharam como o vento, após o jantar. Chegaram às redações da Life, Science News e Saturday Review, que reproduziram parte da apresentação. O texto completo saiu na edição de fevereiro de 1960 de Engineering and Science, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, o Caltech. Tudo isso aconteceu antes que as idéias sobre o que seria chamado de nanotecnologia caíssem no esquecimento e mesmo Feymann não voltasse a elas. Ao menos até 1983, quando apresentou uma versão revisada da palestra original no Laboratório de Propulsão a Jato, também em Pasadena.

A nanotecnologia reapareceu em 26 de junho de 1992, quando um homem magro, rosto ligeiramente pálido e maneiras rígidas entrou na sala 253 do Russel Senate Office Building, na Capitol Hill, em Washington. Carregava sob o braço esquerdo uma caixa estreita com 50 cópias de um documento de nove páginas: Depoimento do Dr. K. Eric Drexlr sobre a Nanotecnologia Molecular perante o Comitê do Senado para o Comércio, Ciência e Transporte, Subcomitê para a Ciência e Tecnologia e Espaço.,Átomos manipulados um a um

As propostas de Drexler pareciam ainda mais extravagantes que as apresentadas por Feymann. Seu projeto era produzir objetos a partir de moléculas, manipulando átomos individualmente, como tijolos na construção de uma casa. Mas isso ainda não era tudo. Objetos muito diferentes entre si seriam construídos por um exército de nanorrobôs, engenhocas nanoestruturadas, pequenas o suficiente para não serem observadas a olho nu. Os nanorrobôs poderiam fazer muito mais que construções novas. Deveriam ser capazes de reconstruir estruturas no interior do corpo humano, revitalizando células epondo fim ao processo de envelhecimento. Da mesma forma, teriam capacidade de redesenhar estruturas biológicas, evitando uma série de doenças de origem genética. E poderiam até imitar estruturas vivas, como bactérias, em suas próprias configurações.

Nanotecnologia, derivado de nano, a bilionésima parte do metro, foi o nome dado à nova tecnologia. Os nanorrobôs foram batizados de montadores e Drexler, segundo Ed Regis, autor de um livro sobre o tema (Nano), interpretado como um maluco completo.

Al Gore ainda não era o vice na chapa democrata de Bill Clinton.
Ele ocupava a presidência do subcomitê do Senado. Gore demonstrou estar bem-informado sobre o assunto e fez o maior número de perguntas a Drexler. Uma delas: Quanto tempo o senhor pensa que seja necessário para que esta tecnologia se materialize, doutor Drexler? Vamos supor que a nanotecnologia receba o mesmo apoio, público e privado, da biotecnologia ao longo dos últimos dez anos. Que progressos o senhor espera para, digamos, 2010?,US$ 710 milhões em 2003

Objetivo como seus modos sugeriam, Drexler devolveu: Nesta área, perguntas assim são difíceis de responder. Posso fazer os cálculos envolvidos com o maquinário molecular, mas não sei como proceder com um programa de pesquisa, onde um conjunto de dificuldades deve ser superado. Em seguida, acrescentou: Geralmente digo que não seria surpresa se, em 15 anos, atingíssemos aplicações importantes, de larga escala.
Foi Al Gore quem se referiu ao trabalho de Feymann, para reforçar as previsões de Drexler. Para Drexler, esta era uma arma de dois gumes. Feymann sempre teve a capacidade de fazer calar os céticos. Al Gore certamente lembrava-se da maneira como ele desvendou o acidente com o Challenger, em 1986. Feymann colocou um jarro de água gelada sobre uma mesa e deixou mergulhado ali um pedaço de borracha, enquanto falava sobre a explosão que matara sete astronautas. Quando apanhou a borracha e, numa ligeira torção, esfacelou-a entre os dedos, os presentes compreenderam tudo. A baixa temperatura, no momento do lançamento do Challenger, havia enrijecido a borracha de vedação dos foguetes auxiliares. Ela perdeu a elasticidade. Os gases escaparam. O ônibus explodiu.
Drexler nunca apreciou a referência a Feymann. Ele tivera a percepção da nanotecnologia nos anos 70, quando era um estudante no MIT, sem conhecer a versão da palestra original.
Filósofos e historiadores da ciência conhecem bem este assunto: descobertas simultâneas, ou com pouca diferença de tempo, feitas por pesquisadores sem nenhum contato entre si. Uma espécie de fermentação social leva a estas descobertas, como criações típicas de uma época.
Em 1992, Drexler era um recém-chegado ao mundo da ciência, enquanto Feymann, morto quatro anos antes, continuava uma autoridade em assuntos controvertidos. Mas, Feymann era um aliado de peso contra o ceticismo de gente como Calvin Quate, professor de engenharia elétrica em Stanford que, segundo registrou Regis, disse a respeito de Drexler: Não acho que deva ser levado a sério. É exageradamente excêntrico. Phillip Barh, da Hewlett-Packard Company não foi menos comedido: O homem é uma fraude.

Dez anos depois, derrotado nas pretensões políticas à presidência, Al Gore pode gabar-se de apurado senso do futuro. O suporte à nanotecnologia na administração Clinton, com lançamento da Iniciativa Nacional de Nanotecnologia (NNI), no início de 2000, tem a pretensão de gerar um programa multi-agências com o objetivo de acelerar o desenvolvimento da nanociência (veja site www.nano.gov) A evolução dos investimentos é a melhor prova dessa determinação. Em 2001, os recursos foram de US$ 422 milhões, subindo para US$ 604 milhões este ano e com US$ 710 milhões previstos para 2003.,Quão pequeno é um nanômetro? Esta seqüência de imagens nos leva cada vez mais fundo na estrutura da matéria, da pele da mão aos átomos do DNA. A margem de cada imagem é 10 vezes menor do que a margem da imagem anterior.,