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Animais estão se adaptando às mudanças climáticas, mas não rápido o bastante

Levantamento internacional aponta que aquecimento global já afeta pássaro e tartarugas, ameaçando essas espécies a longo prazo

O estudo analisou espécies de pássaros bastante comuns na Europa. Foto: Leibniz Institute for Zoo and Wildlife Research

As mudanças climáticas estão superando as habilidades de pássaros e outras espécies de se adaptarem às alterações ambientais. É o que concluiu uma pesquisa feita por uma equipe internacional de cientistas e publicada na revista Nature Communications. No estudo, os pesquisadores analisaram mais de dez mil artigos científicos publicados.

A análise concluiu que os animais de fato conseguem responder às mudanças climáticas, mas não no mesmo ritmo acelerado do aumento das temperaturas. A equipe de pesquisa contou com 64 pesquisadores e foi liderada por Viktoriia Radchuk, Alexandre Courtiol e Stephanie Kramer-Schadt, do Instituto Leibniz de Zoologia, em Berlim, na Alemanha.

Os pesquisadores analisaram espécies de aves comuns, como a pega e o papa-moscas-preto europeu, que são conhecidas por terem desenvolvido adaptações às mudanças climáticas. Além disso, Fredric Janzen, professor de ecologia, evolução e biologia orgânica da Universidade Estadual de Iowa, nos Estados Unidos, contribuiu com dados sobre tartarugas para o estudo.

“O cenário geral é que o clima já está mudando. Sabemos disso”, diz Janzen. “Também sabemos que muitos organismos estão respondendo às mudanças climáticas. O que descobrimos é que, embora essas espécies estejam se adaptando, isso não está acontecendo rápido o suficiente”.

A equipe identificou dados relevantes da literatura científica para relacionar mudanças no clima ao longo dos anos com possíveis mudanças nas características das espécies incluídas no estudo. Eles então avaliaram se as mudanças observadas estavam associadas com resultados desejados, como maiores taxas de sobrevida ou um maior número de filhos.

Espécies respondem às mudanças climáticas alterando o tempo e o momento de importantes processos biológicos, como hibernação, reprodução e migração. O estudo descobriu que essas mudanças, conhecidas como características fenológicas, ocorreram mais comumente em regiões temperadas, onde os processos biológicos foram adiantados em relação ao passado. Espécies também podem sofrer alterações em características morfológicas, como tamanho e massa corporal. Mas o estudo não encontrou um padrão sistemático para explicar como as mudanças climáticas afetam as características morfológicas.

A equipe então comparou a taxa de respostas às mudanças climáticas observadas na literatura científica com uma segunda taxa, que calcula a velocidade com que as características teriam que mudar para acompanhar as mudanças climáticas com precisão. A comparação constatou que as populações que estão passando por mudanças não se adaptam rápido o suficiente para garantir a persistência a longo prazo.

O laboratório de Janzen tem estudado tartarugas do rio Mississippi por décadas. Ele conta que sua pesquisa encontrou os mesmos padrões gerais em tartarugas-pintadas observadas no novo estudo, mas a longevidade da espécie pode mascarar essas tendências. Como tartarugas-pintadas podem viver por décadas, pode parecer que suas populações estão se adaptando com sucesso às condições ambientais alteradas. Mas a mudança climática pode causar declínios genéticos nas populações de tartarugas que ameaçariam sua existência em alguns anos.

“Tartarugas individuais vivem tanto tempo que é possível que tenhamos populações que estarão funcionalmente extintas, ou seja, não serão capazes de produzir descendentes suficientes para se manter a espécie a longo prazo”, diz Janzen.

Universidade Estadual de Iowa