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Campanha contra a homeopatia no SUS será lançada neste sábado

Michael Marshall, britânico responsável por ajudar a retirar a homeopatia do National Health System no Reino Unido, vai participar de iniciativa do Instituto Questão de Ciência

Atualmente, a homeopatia — prática pseudocientífica que baseia seus tratamentos no uso de substâncias hiperdiluídas — é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. Mas a falta de provas científicas da sua eficácia faz com que seu oferecimento em um sistema público seja questionado por instituições e cientistas. É com essa premissa que o Instituo Questão de Ciência (IQC) lança a campanha 10²³, iniciativa que pretende sensibilizar a opinião pública sobre a ineficácia da homeopatia. 

A campanha será lançada em evento no dia 23 de novembro, em São Paulo, e contará com palestrantes internacionais, como Michael Marshall, diretor de Projetos da instituição cética Good Thinking Society, do Reino Unido, e Loretta Marron, CEO e cofundadora da Friends of Science in Medicine, da Austrália. Ambos participaram ativamente do processo de discussão pública e retirada do financiamento público para o uso de homeopatia nos sistemas de saúde de seus países. 

A Scientific American Brasil conversou com Michael Marshall, que também é um importante divulgador científico contra as pseudociências em geral. Confira uma versão editada da entrevista:

Estamos vendo um crescimento de movimentos que negam fatos científicos, como o movimento terraplanista e o anti-vacinas. Por que isso está ocorrendo?

Acho que há algumas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Por um lado, crenças em ideias sem provas ou já refutadas não é algo novo: a ascensão do terraplanismo é peculiar, mas antes da Terra plana outras ideias já eram bastante populares — aliens, fantasmas, cartomantes, médiuns, astrologia, etc. Parece que essas ideias “viram moda”, e então pessoas que valorizam a razão e o pensamento crítico tentam combatê-las. Quando somos bem-sucedidos, essas ideias desaparecem… mas outras surgem no lugar, e pessoas são atraídas por elas.

Dito isso, eu de fato acho que algumas coisas que vemos hoje, como o terraplanismo e movimentos antivacinas, são aceleradas por fatores bastante modernos, como as mídias sociais, o fenômeno das fake news e a cultura dos “memes” — onde você pode compartilhar uma foto com uma frase escrita e centenas de milhares de pessoas vão compartilhar porque ela parece ser verdade, sem sequer parar para questionar se aquilo é ou não verdadeiro. Também há muita incerteza no mundo atualmente — nos âmbitos econômico, político, ambiental — e, quando a incerteza aumenta, as pessoas costumam buscar conforto em afirmações que oferecem respostas simplistas e em ideias que apresentar um vilão para ser culpado pelos problemas do mundo. Para o movimento antivacina, por exemplo, o vilão é a indústria farmacêutica; para os terraplanistas, o vilão é a Nasa; de forma ampla, é o governo em geral.

A Good Thinking Society ajudou a eliminar o uso da homeopatia no âmbito do National Health System do Reino Unido. Atualmente, o SUS brasileiro oferece essa prática. Por que a homeopatia deve ser removida do sistema público?

É simples: homeopatia não funciona. Ela já foi testada repetidamente e com muito cuidado nos mais de 200 anos desde que foi inventada, e, quanto mais cuidadosamente a eficácia da homeopatia é testada, mais claro fica que ela não tem efeito algum. Isso não deveria ser uma surpresa se analisarmos o que a homeopatia de fato é: ela se baseia na ideia de que quanto mais você diluí algo em água, mais forte isso fica. Remédios homeopáticos são feitos com uma substância diluída diversas vezes em água, e os remédios homeopáticos “mais fortes” não contêm nada além de água e açúcar. Não devemos nos surpreender, portanto, que tomar uma pílula de açúcar dissolvida em água normal não tenha efeito nenhum na saúde humana.

Acredito que a razão pela qual a homeopatia sobreviver por tanto tempo seja porque as pessoas pensam erroneamente que ela é um remédio “natural” ou “herbal”, quando na verdade as pílulas não contêm ervas ou qualquer ingrediente ativo, e a crença de que as coisas ficam mais fortes quando diluídas é, possivelmente, a ideia menos natural em que consigo pensar! Se as pessoas estão plenamente conscientes do que é homeopatia — que é apenas açúcar e água — e decidem comprá-la mesmo assim, essa é uma escolha pessoal, desde que entendam que não há evidências de que ela possa ajudá-las a melhorar. Mas, quando se trata de orçamento para sistema público de saúde — seja no Reino Unido ou no Brasil —, não há justificativa para gastar dinheiro em remédios que se mostraram ineficazes. Cada libra ou real que o governo gasta com um remédio homeopático é dinheiro a menos que poderia ser gasto em tratamentos que se mostraram realmente eficazes.

Como a mídia pode ajudar a combater a desinformação?

Há algumas coisas que a mídia pode fazer para ajudar, acredito. Por um lado, a mídia precisa reconhecer que, embora pessoas possam ter opiniões pessoais sobre tópicos como homeopatia, a questão de saber se algo de fato é eficaz ou não não é uma questão de opinião: temos uma resposta para essa pergunta, e já se comprovou que remédios homeopáticos não têm eficácia. O mesmo ocorre com vacinas — as pessoas têm opiniões a favor e contra, mas sabemos objetivamente que as vacinas funcionam. 

No Reino Unido, e imagino que em todo o mundo também, existe um hábito na mídia de apresentar esses tipos de questões como um debate: você procura um médico que diz que a homeopatia não funciona e um homeopata que diz que homeopatia vendida por ele funciona, e deixa o público ouvir os dois lados igualmente. Ou você encontra alguém que diz que as vacinas são perigosas e um médico que explica por que elas são vitais, e a audiência ouve ambos. Mas esta é uma maneira terrível de abordar um tópico científico, onde a resposta já foi testada e descoberta! Debates aindas podem ser feitos — por exemplo, pode ser um debate válido perguntar “mesmo que a homeopatia não seja eficaz, ela deve ser fornecida pelo SUS se as pessoas exigirem?, ou “mesmo sabendo que as vacinas são eficazes, elas devem ser obrigatórias?” — mas o que não está mais em debate é se a homeopatia funciona ou se as vacinas são seguras.

Outra coisa que a mídia deve estar ciente é o hábito de dar muito destaque a um resultado incomum. Por exemplo, se alguém tem câncer e decide ignorar tratamentos convencionais e, em vez disso, toma apenas homeopatia ou medicina alternativa, é tentador para a mídia cobrir sua história como um caso de “cura alternativa milagrosa para o câncer “. Mas se cem pessoas tomarem a mesma decisão, e 99 delas não sobreviveram para contar a história, a mídia deu uma visão distorcida e irreal para seu público. O que é ainda mais enganador — e isso é algo que acontece o tempo todo, infelizmente — é quando um paciente com câncer toma medicina convencional E uma medicina alternativa e, quando sobrevivem, a mídia atribui sua sobrevivência à medicina alternativa, sem nunca mencionar que eles também estavam fazendo tratamentos comprovadamente eficazes.

Bruno Carbinatto