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Células imunológicas podem acelerar crescimento de alguns tumores, ao invés de contê-los

Estudo revela que células cancerígenas podem recrutar células de defesa para crescerem mais rápido; resultados abrem caminho para novos tratamentos

Os tumores surgem quando células se desprendem de suas restrições e começam a se multiplicar incontroladamente. Mas o quão rápido os tumores crescem não depende somente da velocidade em que as células cancerígenas conseguem se dividir, como um recente estudo descobriu.

Examinando tumores cerebrais em camundongos, pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington descobriram que células imunológicas, que deveriam defender o corpo de doenças, podem às vezes ser levadas a ajudar as células cancerígenas. Quanto mais células imunológicas um tumor conseguir recrutar para o seu lado, mais rápido ele cresce, segundo os resultados.

As descobertas, publicadas no dia 29 de maio na revista Neuro-Oncology, sugerem que atacar as células imunológicas pode potencialmente retardar o crescimento do tumor em pessoas com a condição genética chamada neurofibromatose tipo 1 (NF1).

“Não é mais só sobre as células tumorais”, conta o autor sênior do estudo David H. Gutmann, professor de Neurologia e diretor do Centro de Neurofibromatose da Universidade de Washington. “É também sobre o que acontece no ambiente do tumor que leva ao crescimento do câncer cerebral. Isso nos dá outra maneira de atacar esses tumores além de simplesmente matando as células do câncer — por exemplo, interromper a comunicação entre células tumorais com as células do sistema imunológico.”

Embora pessoas com NF1 geralmente chamem a atenção médica por marcas de nascença na pele, elas também correm maior risco de desenvolver tumores. Um dos mais comuns desses tumores em crianças é um tumor cerebral de baixo grau chamado glioma óptico, que afeta o nervo óptico que conecta o cérebro e o olho. Alguns destes tumores podem causar perda de visão.

Infelizmente, a NF1 é uma doença conhecida por ser muito variável. Os médicos não podem prever que tipos de tumores uma pessoa desenvolverá, com que rapidez esses tumores crescerão ou que tipos de problemas médicos eles causarão — o que torna difícil decidir quando um tumor precisa ser tratado com quimioterapia e quando é seguro simplesmente observar e esperar.

Para entender melhor porque alguns tumores crescem mais rapidamente que outros, o primeiro autor do estudo Xiaofan Guo, um estudante de pós-graduação no laboratório de pesquisa de Gutmann, criou cinco linhagens de camundongos com diferentes mudanças genéticas no gene responsável pela NF1, além de mudanças em outros pontos dos genomas das cobaias.

As cinco linhagens variaram bastante em termos de desenvolvimento e crescimento do tumor. Camundongos pertencentes a três das linhagens começaram a experienciar o crescimento do tumor em cerca de três meses de vida, com os tumores em uma das linhagens crescendo particularmente rápido. Membros da quarta linhagem não tiveram tumores até os seis meses de idade, e apenas um quarto dos camundongos da quinta linhagem desenvolveu de fato tumores cerebrais no nervo óptico.

Quando os pesquisadores isolaram as células tumorais dos camundongos e cultivaram-nas em uma placa de laboratório, descobriram poucas diferenças no crescimento celular do tumor. As taxas de crescimento e outras propriedades das células cancerígenas eram muito similares, não importando quais mutações essas células carregavam.

O que de fato se correlacionava com a proliferação geral do tumor era a presença de duas células imunológicas — micróglias e linfócitos T — dentro dos tumores. Guo, juntamente com Yuan Pan, pesquisador de pós-doutorado, descobriram que as células do tumor estavam liberando proteínas do sistema imune que atraíam células imunológicas para o tumor.

“Células que deveriam ser parte da defesa do cérebro contra tumores se tornaram parte do processo de criá-los e desenvolvê-los”, conta Gutmann, que também é professor de genética, cirurgia neurológica e pediatria.

A equipe está agora tentando tirar vantagem dessa relação entre células tumorais e do sistema imunológico para descobrir novas maneiras de tratar tumores cerebrais de pessoas com NF1. Uma estratégia é a de desacelerar o crescimento do tumor prevenindo que as micróglias ou linfócitos T prestem ajuda às células cancerígenas. No entanto, uma estratégia mais ambiciosa é reprogramar essas células para não ajudar mais no crescimento do tumor.

“A ideia é usar as células T como cavalos de Tróia”, conta Gutmann. “Esses experimentos estão em teste atualmente. Estamos tentando mudar os linfócitos T para que, quando entrem no cérebro, encerrem o crescimento do tumor, ao invés de promovê-lo.”

Universidade de Washington