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Comércio de animais selvagens envolve quase um quinto dos animais vertebrados do planeta

Primeira estimativa feita na história encontrou quase 5.600 espécies terrestres comercializadas no mundo, e aponta quais podem ser as próximas a ganhar o status de ameaçadas

Um shama branca (Copsychus malabaricus) à venda em um mercado de pássaros em Yogyakarta, Indonésia. Crédito: Gabby Salazar

A caça furtiva a elefantes, rinocerontes e tigres estampa os noticiários regularmente, mas essas espécies respondem apenas por uma pequena fração do comércio global de vida selvagem, tanto legal como ilegal. Essa indústria multibilionária afeta animais que vão de tartarugas marinhas e pássaros a cascavéis e lontras. Mas até agora a contagem exata do total espécies afetadas nunca passou, na melhor das hipóteses, de um palpite, porque não há organização internacional que monitore esses dados.

Agora, pela primeira vez um grupo de pesquisadores calculou estimou um número para o problema, e ele é colossal: são quase 5.600 espécies — cerca de 18% dos animais vertebrados terrestres conhecidos do planeta — envolvidas nesse comércio. “Quase um em cada cinco é um número muito grande”, diz Brett Scheffers, biólogo da Universidade da Flórida e principal autor do estudo, publicado na quinta-feira na revista Science. “O que é importante e surpreendente nesse trabalho é que, pela primeira vez, conhecemos a magnitude do tráfico global de vida selvagem.” No estudo, a equipe de Scheffers também prevê quais espécies podem ser as próximas a estarem em risco.

Vários aspectos do mundo moderno explicam por que o comércio de vida selvagem tem a capacidade de dizimar as espécies afetadas em apenas alguns anos. A globalização acelerou e expandiu o comércio em geral, e a riqueza está aumentando em muitos lugares onde os animais são tradicionalmente procurados. Além disso, as mídias sociais conectam facilmente vendedores e compradores, seja no mesmo país ou no exterior. Então, quando uma espécie subitamente se torna uma mercadoria cobiçada —  seja algo tão comum quanto uma lagartixa-tokay ou tão raro quanto um lagarto-monitor — as coisas podem subitamente sair do controle. “No comércio de animais selvagens, existe essa força de mercado que se concentra intensamente em espécies específicas”, diz Scheffers. “Uma espécie que estava segura há 10 anos pode passar rapidamente para o estado de quase extinção.”

 

Arte: Amanda Montañez / Dados: Global Wildlife Trade across the Tree of Life,” por Brett R. Scheffers em Science, Vol. 366

Tanto o comércio ilegal quanto o legal podem levar a esse risco. Garantir que o comércio legal não se torne insustentável requer saber quais espécies estão sendo vendidas — e onde. As únicas organizações importantes que controlam, mesmo que parcialmente, esses dados são a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) — que avalia os níveis de ameaça para várias espécies e compila as observações de cientistas sobre se essas espécies são capturadas para uso humano — e a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e da Fauna Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES). A CITES lida apenas com uma pequena porcentagem da vida selvagem comercializada em todo o mundo, no entanto, e plantas e animais geralmente só são adicionados à lista de espécies protegidas depois que o comércio já as colocou em estado de crise. “É uma abordagem reativa, não pró-ativa”, diz Scheffers.

Para preencher essa lacuna, Scheffers e seus colegas criaram um algoritmo de pesquisa que extraiu os bancos de dados da IUCN e da CITES sobre registros comerciais de animais terrestres. Eles encontraram dados de 5.579 espécies, a maioria nativa de áreas tropicais. As espécies comercializadas tiveram uma probabilidade significativamente maior de serem ameaçadas do que as não comercializadas.

“Estou um pouco chocado com o tamanho do comércio”, diz Bill Laurance, biólogo de conservação na James Cook University, na Austrália, que não participou do novo estudo. “Eu sabia que, em termos da proporção de espécies afetadas, os números eram ruins, mas não imaginava que seriam tão ruins assim. Somente por esse motivo este estudo já é impressionante.”

O mapeamento das relações evolutivas da espécie — ou seja, a filogenia —, revelou ainda que, se uma espécie é altamente comercializada, é provável que seus parentes próximos também sejam. “O modo como o comércio se enrosca pela árvore da vida é muito organizado”, diz Scheffers.

Com base nessa descoberta, ele e seus colegas extrapolaram o número de espécies que podem ser impactadas pelo comércio por causa de sua proximidade evolutiva com as que já estão sendo comercializadas. Eles encontraram outras 3.196 espécies que estão em risco de entrar no mercado. Essa abordagem preditiva “nos dá uma ideia importante dos tipos de espécies e ecossistemas que serão mais vulneráveis no futuro”, diz Laurance.

As previsões também acompanham a maneira como o comércio de vida selvagem é conhecido por se desenvolver. À medida que os tigres se tornam mais raros, por exemplo, peças de leões e onças-pintadas começaram a entrar no mercado negro da China como substitutos. Da mesma forma, enquanto a Ásia esgotou suas populações de pangolins — os mamíferos mais traficados do mundo —, os comerciantes rapidamente começaram a adquirir espécies de pangolins africanas para enviá-las para a Ásia.

Scheffers e sua equipe esperam expandir seus estudos para incluir orquídeas, árvores, animais marinhos, peixes de água doce e outras espécies excluídas do atual algoritmo, porque os dados não estavam tão prontamente disponíveis (o estudo também não incluiu alguns crocodilos, lagartos e jacarés). “Se você estender isso a todas as plantas e peixes do mundo, veremos muitos outros milhares de espécies sendo comercializadas como animais de estimação ou como produtos”, diz Scheffers.

Os pesquisadores também gostariam de mapear as tendências do comércio ao longo do tempo, acrescenta, porque isso tornaria as descobertas ainda mais úteis para os formuladores de políticas públicas e órgãos de aplicação da lei. Mas Sue Lieberman, vice-presidente de política internacional da Wildlife Conservation Society, levanta dúvidas sobre se as descobertas desse tipo resultarão em qualquer mudança positiva. “Um agente do Estado pode olhar para esses gráficos interessantes e coloridos no jornal e concluir que realmente precisamos prestar mais atenção ao comércio de anfíbios”, diz ela. “Bem, acho que eles já sabem disso. Se eles fazem algo a respeito é outra questão.”

Rachel Nuwer