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Coronavírus pode ser se espalhado bem além de área sob quarentena, sugere estudo

Modelo que usou dados de deslocamento de passageiros pela China sugere que o vírus pode ter alcançado 128 cidades que não estão sob quarentena hoje

No metrô da cidade de Chongqing, passageiros usam máscaras com medo da contaminação pelo novo coronavírus.

Estudo realizado  por uma equipe pesquisadores da área de doenças infecciosas que reune profissionais dos EUA,  da França e da China  concluiu que existe uma alta probabilidade de que o novo coronavírus tenha se espalhado para fora de Wuhan e de outras cidades hoje sob quarentena antes que as autoridades chinesas adotassem  a medida. Segundo o artigo que relata o estudo, que foi submetido à revista científica Emerging Infectious Diseases, pelo menos 128 cidades na China fora da zona de quarentena poderiam ter sido expostas ao vírus, embora  ainda não tenha havido qualquer notificação de casos nestas cidades.

O estudo partiu de uma grande quantidade de dados sobre deslocamento de pessoas, que foram inseridos num modelo computacional da doença desenvolvido no  Centro de Computação Avançada da Universidade do Texas em Austin. A análise identificou nestas 128 cidades uma chance 50% maior  de terem recebido um viajante oriundo da zona sob quarentena antes que a medida fosse implementada.  A equipe também estimou em  11.213 os casos de coronavírus em Wuhan na época da quarentena de 22 de janeiro – uma taxa 10 vezes maior do que os casos relatados.

“Essa avaliação de risco identificou várias cidades em toda a China que provavelmente abrigam casos ainda não detectados de [coronavírus Wuhan] e sugere que as viagens terrestres e ferroviárias no início de 2020 espalharam  casos muito além da quarentena da região de Wuhan”, escrevem os autores.

Até hoje, dia 4 de fevereiro, as autoridades confirmaram 425 mortes pelo vírus. Todas exceto duas ocorreram na China continental. Há  mais de 20.000 casos confirmados pelo mundo, quase todos na China.

O artigo mostra que há uma chance de 99% de que pelo menos um paciente portador do vírus tenha viajado para as cidades de Pequim, Guangzhou, Shenzhen e Xangai na época em que a quarentena foi implantada para a cidade de Wuhan, em 23 de janeiro. A partir de então, a zona sob quarentena foi expandida e hoje afeta  60 milhões de pessoas em várias cidades. Pequim divulgou sua primeira fatalidade pelo vírus em 27 de janeiro.

A equipe estimou que novos casos do vírus dobrariam aproximadamente a cada semana e, em média, que todas as pessoas infectadas transmitissem a doença a aproximadamente duas outras pessoas.

Lauren Ancel Meyers, epidemiologista matemática e professora de biologia  e estatística e ciências de dados na UT Austin; e Zhanwei Du, cientista da computação que trabalha na UT Austin, juntamente com uma equipe de cientistas da França, China e Hong Kong, usaram dados coletados nos históricos de viagens para a movimentada temporada do Festival da Primavera para mapear os movimentos humanos entre 371 cidades da China. A equipe usou dados de viagens rodoviárias, ferroviárias e aéreas para obter resultados mais precisos do que os de outros modelos.

“Dado que 98% de todas as viagens durante esse período são feitas de trem ou carro, nossa análise dos dados de viagens aéreas, ferroviárias e rodoviárias gera estimativas de risco mais detalhados do que as que se pode fazer com base apenas nos dados dos viajantes por via aérea”, disse Meyers, especialista na modelagem da propagação de doenças infecciosas. “A quarentena provavelmente impedirá a transmissão em Wuhan no futuro. No entanto, a introdução  do novo coronavírus  em toda a China e no mundo já havia ocorrido quando a quarentena começou.”

O modelo também leva em consideração os casos relatados da doença fora da China para estimar as taxas de crescimento epidêmico.

Com base nas estimativas da equipe, existem  de 128 cidades a 186 cidades na China com pelo menos 50% de chance de terem recebido um visitante infectado vindo de Wuhan  nas três semanas antes da promulgação da quarentena. Várias cidades que relataram nenhum caso tiveram uma probabilidade de 99% de uma pessoa infectada visitar. Essas cidades – cada uma com uma população de mais de 2 milhões de habitantes – incluem Fushun, Laibin e Chuxiong.