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Delta do rio Cubango, em Botsuana, pode ter sido local de origem da humanidade

Evidências genéticas sugerem que todos humanos poderiam remontar a uma única comunidade de caçadores-coletores que viveu há 200.000 anos, mas o novo estudo gerou polêmica

Os caçadores ǀkun ǀkunta, Nǂamce Sao e ǀkun Nǂamce, todos Juǀ’hoansi, recriam o modo de caça usado pelos seus ancestrais quando a região era vasto pantanal. ǀkun ǀkunta, Nǂamce Sao e ǀkun Nǂamce vivem atualmente nessa região. Crédito: Chris Bennett

Qualquer pessoa que tenha tido a sorte de visitar o Delta do rio Cubango em Botsuana, no sul da África, se lembrará da sensação agradável e estranhamente familiar que surge ao olhar as árvores e a vida selvagem — que inclui de elefantes e cães selvagens africanos até pássaros rolieiros-de-peito-lilás —, tudo isso em meio a planícies exuberantes. Esse sentimento de familiaridade pode ser mais profundo do que imaginamos, datando de uma época em que seres humanos modernos também vagavam por lá, de acordo com o que sugere um novo estudo.

A pesquisa, publicada na segunda-feira na revista Nature, utiliza evidências genéticas, arqueológicas, linguísticas e climáticas para argumentar que a pátria ancestral de toda a humanidade é o norte de Botsuana — e não o leste da África, como pensam alguns. Baseando-se no DNA mitocondrial, que é transmitido de mãe para filha, os coautores do artigo argumentam que todos somos descendentes de uma pequena comunidade de caçadores-coletores do povo Khoisan, que viveu há 200 mil anos em vastas áreas úmidas que abrangem o Delta do Cubango (também conhecido como Delta do Okavango) de Botswana, além das regiões de Makgadikgadi.

A maior parte do lugar hoje é uma planície de sal compactada e seca, habitada pelo povo Khoisan moderno, também chamados de bosquímanos. Mas, naquela época, a região era um vasto pantanal com uma área do tamanho da Suíça. A comunidade que morava lá era estranhamente estável, prosperando de forma quase inalterada por 70.000 anos em um habitat semelhante ao moderno Delta do Cubango, de acordo com a autora sênior do artigo, Vanessa M. Hayes, geneticista do Instituto Garvan de Pesquisas Médicas, na Austrália.

O novo estudo analisou os genomas mitocondriais de 1.217 indivíduos de múltiplas identidades étnicas no sul da África, e se concentrou em uma linhagem de “raízes profundas” chamada L0 ou L zero. É a linhagem mitocondrial mais antiga conhecida, transmitida intacta de mãe para filha através das gerações, embora mutações possam ocorrer às vezes, talvez estando associadas a importantes mudanças evolutivas. Hayes ficou interessada nessa linhagem após seu trabalho com o Projeto Genoma da África do Sul, que encontrou evidências de ascendência de L0 distribuídas no sul da África. O Arcebispo Emérito Desmond Tutu (prêmio Nobel da Paz em 1984), descendente principalmente de grupos bantus que migraram para o sul da África há 1.500 anos, foi um dos identificados como tendo ascendência Khoisan, uma conexão que, segundo ele, o fez se sentir “muito privilegiado e abençoado”.

Rastrear o acúmulo de mutações na linhagem L0 ao longo das eras fornece aos geneticistas um “carimbo” de data das mudanças evolutivas. Com isso, os coautores do artigo identificaram e dataram alterações na linhagem L0. Eles também correlacionaram esses eventos de “ramificação” com evidências de mudanças climáticas, bem como com evidências arqueológicas de migrações humanas. Durante os 70.000 anos iniciais de habitação estável, a migração provavelmente foi restringida pelas condições duras e secas do ambiente, diz o coautor Axel Timmermann, cientista climático da Universidade Nacional Pusan, ​​na Coréia do Sul. Mas, há cerca de 130.000 anos, um período de aumento de chuvas abriu um corredor verde para migrações em direção ao nordeste. Então, há cerca de 110.000 anos, as condições de seca na terra natal e a abertura de um corredor verde para o sudoeste levaram a novas migrações até o extremo sul da África. As evidências de ambos os eventos sobrevive, de acordo com o estudo, em subgrupos da linhagem L0 encontrados em descendentes vivos dessas migrações.

A nova pesquisa se encaixa com outras evidências genéticas recentes sobre o surgimento do homem na África Austral, incluindo um estudo do início deste ano que sugeriu que uma migração desse local para a África Oriental, bem como a resultante mistura com populações da região, podem ter sido um ponto chave na evolução dos seres humanos modernos e sua migração para fora da África. Outro artigo deste ano também argumenta que uma migração da África Austral para a África Oriental imediatamente precedeu uma grande migração fora da África, entre 100.000 e 70.000 anos atrás. Um ponto de vista alternativo conhecido como pan-africano ou “policêntrico” sustenta que várias populações interligadas evoluíram em todo o continente, algumas vezes em isolamento e outras em contato.

James Cole, arqueólogo da Universidade de Brighton, na Inglaterra, que não participou do novo estudo, elogia Hayes e seus colegas pela abordagem interdisciplinar no entendimento da evolução mitocondrial. Mas ele também observa que o trabalho deles ignora importantes evidências arqueológicas, como os restos esqueléticos de um ser humano anatomicamente moderno encontrados recentemente em Marrocos, datando de 315.000 anos atrás. Hayes, por sua vez, responde que seu estudo se concentra apenas na população de ancestrais diretos de “pessoas que estão por aí hoje” e que, na ausência de evidências genéticas do espécime de Marrocos, sua conexão com seres humanos atuais ainda é desconhecida.

Milford Wolpoff, paleoantropólogo da Universidade de Michigan, que também não participou do novo estudo, também argumenta que as evidências apresentadas pelos autores são muito limitadas. Confiar unicamente em evidências mitocondriais leva a erros de interpretação, diz ele, e há o risco de ignorar informações evolutivas importantes presentes no DNA do núcleo celular. Nossa herança geral de genes neandertais aparece, por exemplo, apenas no DNA nuclear, e está completamente ausente do genoma mitocondrial. Da mesma forma, Wolpoff diz que “o genoma nuclear, com três bilhões de pares de bases, pode contar uma história completamente diferente sobre a origem africana dos humanos modernos, se comparada ao que sugerem os 16.000 pares de bases do genoma mitocondrial”.

“Estamos lidando com um quebra-cabeça de um milhão de peças”, diz Cole, “e provavelmente já montamos as 100 primeiras.” A paleogenética “aumentou exponencialmente a escala da complexidade”, acrescenta ele. “Quanto tínhamos o registro paleontológico e arqueológico, era um quebra-cabeça de apenas 1.000 peças.” Mas, em vez de fornecer uma resposta definitiva sobre a origem humana, Cole sugere que, até agora, a genética está principalmente nos mostrando o quão complexa é nossa história.

Richard Conniff