Notícias

E o vento levou os microplásticos

As correntes atmosféricas estão transportando poluição de plástico para áreas remotas e primitivas, mostrando a natureza global do problema

Microplásticos nos Açores (WikimediaCommons/Raceforwater)

Em meio aos picos escarpados da região de Vicdessos, nos Pireneus franceses, os únicos sinais visíveis de presença humana são um punhado de aldeias e um ou outro estranho caminhante ou esquiador; por isto, este ambiente é considerado quase intocado. Mas, mesmo aqui, os cientistas detectaram pequenos pedaços de plástico caindo do ar como poeira artificial.

Um estudo inédito constatou que essas partículas foram carregadas pelo vento por pelo menos 100 quilômetros de distância, e provavelmente vieram de muito mais longe. Esta é uma indicação clara de que o transporte atmosférico é mais uma maneira de a poluição plástica se espalhar pelo planeta, mesmo em áreas remotas. “Isso sugere que este é um problema muito maior do que pensamos atualmente”, diz a co-autora do estudo, Deonie Allen, da Escola Superior Nacional de Agronomia de Toulouse (ENSAT).

O estudo, publicado na revista Nature Geoscience, é um dos poucos que tentaram medir a quantidade de plástico que está caindo da atmosfera. Ele marca a primeira onda no que provavelmente será uma inundação de tais estudos nos próximos anos, em um esforço para preencher a imagem de como os microplásticos se movem em torno do ambiente e como as pessoas podem ser expostas a eles.

“Ninguém tinha olhado para cima”

Os microplásticos são peças minúsculas que se originam de itens de plástico maiores (como garrafas e bolsas) à medida que se degradam no ambiente, bem como as fibras que se desprendem dos tecidos sintéticos. Eles vêm em uma ampla gama de tamanhos – de um grão de arroz até um vírus – e são compostos de uma variedade complexa de polímeros e produtos químicos adicionados.

A maioria das pesquisas para detectar microplásticos no meio ambiente foi feita no oceano, local onde foram notados pela primeira vez, mas os cientistas perceberam lentamente que eles também estão presentes nos sistemas de água doce, no solo e na atmosfera. O primeiro estudo para medir a precipitação de plástico da atmosfera – realizado em Paris – foi publicado apenas em 2015. A atenção recente à questão significa que há apenas um punhado de medições de plástico transportado pelo ar e pouca noção de como os números podem variar de lugar para lugar, dependendo das condições meteorológicas e de onde o material está vindo.

Allen e seus colegas sabiam que os microplásticos haviam sido encontrados em rios e sedimentos nos Pireneus, mas ninguém havia determinado as fontes. A quantidade não poderia ter vindo de fontes locais por causa da pequena população humana e da atividade industrial limitada, então Allen se deparou com uma questão fundamental: “Por que não olhamos para cima?”

Foi isso que ela e seus colegas fizeram, aproveitando os equipamentos de medição atmosférica já instalados nos Pireneus e coletando amostragens durante cinco meses. Eles encontraram fibras de plástico, filmes e fragmentos, todos em uma variedade de tamanhos. A maioria dos polímeros que apareceram nas amostras foram poliestireno, polietileno e polipropileno, que são comuns em produtos plásticos de uso único, como sacos e recipientes de espuma para alimentos.

Uma primeira olhada

Como o novo estudo incluiu tamanhos menores de partículas do que estudos anteriores, os pesquisadores descobriram mais partículas de plástico em geral; isso confirma uma tendência recorrente nos achados de pesquisa em microplásticos de que quanto menor o tamanho das partículas, maior a quantidade delas. Ao comparar apenas as faixas de tamanho examinadas no estudo de Paris em 2015, Allen e seus colegas descobriram uma quantidade similar de microplástico, o que foi inesperado, considerando os ambientes díspares dos dois estudos. Isso poderia significar que o novo estudo “nos dá um nível de microplástico de fundo que provavelmente se obtém em todo o mundo”, diz Melanie Bergmann, ecologista marinha do Instituto Alfred Wegener de Pesquisa Polar e Marinha (AWI), que estuda microplásticos, mas não esteve envolvido na nova pesquisa. Mas como as amostras foram calculadas ao longo de um mês inteiro, pode ser que o nível de fundo nos Pireneus seja menor, mas é pontuado por plumas periódicas de microplásticos vindas de áreas povoadas.

O estudo não apontou precisamente onde os microplásticos se originaram, mas usou modelos computacionais de correntes atmosféricas para tentar rastrear as correntes aéreas que os trouxeram – trata-se do primeiro estudo a fazê-lo. Eles só podiam rastrear as massas de ar regionalmente, mas eram capazes de mostrar as principais direções de onde vieram. Ficou claro que as cidades e aldeias relativamente pequenas dificilmente seriam responsáveis ​​por todo o plástico detectado, o que sugere que as fontes finais são mais distantes.

Embora esse rastreamento seja “um passo importante”, diz Stephanie Wright, pesquisadora de microplásticos do King’s College London, que não estava envolvida na pesquisa, “você precisa conhecer as fontes para entender melhor a trajetória posterior”. Diferentes plásticos podem ser proveniente de diferentes fontes, e “uma corrente de ar poderia apenas pegar fragmentos no caminho”, diz ela.

Os autores dizem que seu trabalho é apenas uma primeira “espiada” no cenário de microplásticos aerotransportados. Muitas outras amostras de todo o mundo – assim como experimentos de laboratório que verificam como diferentes formas, tipos e tamanhos de plásticos se comportam em diferentes condições meteorológicas – são necessárias para compreender todo o escopo da situação, incluindo a quantidade de microplásticos que os seres humanos podem inalar. Ambos, Wright e Bergmann, têm estudos pendentes que medem a precipitação de microplásticos em Londres e no Ártico, respectivamente, e estes irão adicionar mais dados. Allen e seus colegas também estão trabalhando para expandir suas pesquisas. O co-autor Steve Allen, da ENSAT e da Universidade de Strathclyde, diz que “nós devemos, nos próximos anos, ter uma ideia muito melhor do que está acontecendo.”

Andrea Thompson