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Erupções vulcânicas transformaram clima na Terra ainda no século 19

Além de contribuir para a pequena Era do Gelo na Europa, fenômeno causou secas na África e na Índia. Descoberta pode ajudar a melhorar as medições atuais do aquecimento global.

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Alguns vulcões localizados na região dos Trópicos foram à loucura entre os anos 1808 e 1835: durante esse curto período, não apenas o Monte Tambora entrou em erupção na Indonésia, mas também foram registrados outros quatro eventos de grande magnitude. Essa série incomum de erupções vulcânicas causou secas duradouras na África e também contribuiu para o último avanço das glaciares alpinos durante a “Pequena Era do Gelo”.

“Erupções vulcânicas frequentes causaram uma mudança significativa na marcha do sistema climático global”, conta Stefan Brönnimann, líder da equipe de pesquisa internacional que descobriu os efeitos da série de erupções nos oceanos e, consequentemente, na circulação atmosférica. Brönnimann é professor de climatologia da Universidade de Berna, na Suíça, e membro do Centro Oeschger para Pesquisa Climática. O estudo foi publicado na revista Nature Geosciences.

Menos chuva na África e na Índia, mais chuva e neve na Europa

Para a pesquisa, os cientistas analisaram novas reconstruções climáticas que incluem a circulação atmosférica, e compararam os resultados com dados baseados em observações. Por fim, simulações de modelos ajudaram a medir o papel dos oceanos nas mudanças climáticas do começo do século 19, e mostraram que, mesmo após várias décadas, eles não conseguiram se recuperar dos efeitos causados pela série de erupções. Entre as consequências, houve o enfraquecimento permanente dos sistemas de monções da Índia e da África, e uma mudança na circulação atmosférica sobre o setor Atlântico-Europa. Isso levou a um aumento nos sistemas de baixa pressão na Europa Central.

O último avanço dos glaciares nos Alpes, entre as décadas de 1820 e 1850 — retratado em pinturas e até mesmo fotos antigas — foi uma consequência do aumento da precipitação devido à circulação alterada, combinado com temperaturas baixas. No entanto, a temperatura global aumentou novamente, do fim do século 19 para frente. A Pequena Era do Gelo foi eventualmente substituída pela primeira fase do aquecimento global, que culminou na década de 1940, já com uma contribuição significativa da atividade humana.   

Definição de “clima pré-industrial” 

O novo estudo não apenas explica o clima global do começo do século 19, mas também é relevante para o presente. “Devido às grandes mudanças climáticas observadas no começo do século 19, é difícil definir um clima pré-industrial, um conceito a que todos nossos alvos climáticos se referem”, explica o principal autor Stefan Brönnimann. E isso tem consequências para os alvos climáticos definidos por formuladores de políticas públicas, que querem limitar o aumento da temperatura global a algo entre 1,5 e 2 graus celsius, no máximo. 

Dependendo do período de referência, o clima já esquentou muito mais significativamente do que se colocava em debates climáticos. O motivo? O clima de hoje geralmente é comparado com um período de referência que vai de 1850 a 1900, para assim quantificar o aquecimento atual. Visto por esse ângulo, a temperatura global aumentou em 1 grau. “O período de 1850 a 1900 é certamente uma boa opção, mas, se,comparado com a primeira metade do século 19, quando o clima era significativamente mais frio, devido às frequentes erupções vulcânicas, a temperatura já aumentou cerca de 1,2 graus”, explica Stefan Brönnimann.

Universidade de Berna