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Estou convencido que encontramos evidência de vida em Marte nos anos 70

O experimento Labeled Release, da missão Viking, relatou resultados positivos, que depois foram rejeitados como reações químicas inorgânicas

Vista da sonda Viking. Crédito: Nasa

Nós, seres humanos, finalmente podemos voltar a olhar para a origem do nosso Universo. Nas últimas décadas, aprendemos muito sobre as leis da natureza que controlam o número aparentemente infinito de corpos celestes, e também o modo como eles evoluem, como se movimentam e quais são seus possíveis destinos. No entanto, ainda não temos uma resposta amplamente aceita quanto a se existe vida além de nós, ou se somos, como no poema “O Conto do Velho Marinheiro” de Samuel Coleridge, “sozinhos, sozinhos, sozinhos, sozinhos em um grande mar!“.

Até hoje, fizemos apenas uma exploração para tentar resolver esse mistério primordial. Tive a sorte de ter participado dessa aventura histórica como responsável pelo experimento de detecção de vida chamado Labeled Release (LR), na espetacular missão Viking da Nasa para Marte, em 1976.

Em 30 de julho de 1976, o LR retornou com seus resultados iniciais de Marte. Surpreendentemente, eles eram positivos. À medida que o experimento progredia, um total de quatro resultados positivos, apoiados por cinco controles variados, vieram das sondas Viking, que haviam pousado a uma distância de 6.000 quilômetros uma da outra. Os dados sinalizaram a detecção de respiração microbiana no Planeta Vermelho. As curvas de dados de Marte eram semelhantes às produzidas pelo mesmo teste em solos da Terra. Parecia que tínhamos finalmente respondido a grande pergunta definitiva.

Porém, quando o Experimento de Análise Molecular da Viking falhou em detectar matéria orgânica — a essência da vida —, a Nasa concluiu que o LR havia encontrado uma substância que imitava a vida, mas que não era a vida. Inexplicavelmente, nos 43 anos posteriores a essa missão, nenhuma das missões da  Nasa que pousaram em Marte carregou algum instrumento de detecção de vida para continuar com essas instigantes pesquisas. Em vez disso, a agência lançou uma série de missões no planeta para determinar se há um habitat adequado para a vida e, se assim for, eventualmente trazer amostras para a Terra para exames biológicos.

A Nasa mantém a busca por vida alienígena entre suas maiores prioridades. Em 13 de fevereiro de 2019, o administrador da agência, Jim Bridenstine, disse que poderíamos encontrar vida microbiana em Marte. Os Estados Unidos agora se comprometeram a enviar astronautas para Marte. Qualquer possível vida lá pode representar uma ameaça para eles — e também para nós, quando eles voltarem. Dessa forma, a questão da vida em Marte está no centro das atenções.

Procurar vida no nosso vizinho vermelho parecia um tiro no escuro. Por outro lado, seria quase um milagre que Marte fosse estéril. O cientista da Nasa Chris McKay disse uma vez que Marte e a Terra estão “trocando cuspe” há bilhões de anos, o que significa que, quando um planeta é atingido por cometas ou grandes meteoritos, parte de seu material é ejetado para o espaço. Uma pequena fração desse material acaba pousando no outro planeta, talvez infectando-o com caronas microbiológicas. O fato de algumas espécies microbianas da Terra sobreviverem ao ambiente marciano foi demonstrado em muitos laboratórios. Há até relatos de sobrevivência de microrganismos expostos ao espaço fora da Estação Espacial Internacional (ISS).

A hesitação da Nasa contra uma busca direta por microrganismos no espaço ignora a simplicidade do experimento realizado por Louis Pasteur em 1864. O cientista fez com que microrganismos contaminassem um caldo nutritivo, o qual apresentou bolhas do gás logo depois. Antes de conter microorganismos vivos, nenhuma bolha havia aparecido. (Pasteur havia determinado anteriormente que o aquecimento, ou pasteurização, de uma substância mataria os micróbios.) Esse teste, elegantemente simples, atualizado para substituir os produtos da infusão de Pasteur por nutrientes microbianos modernos, é usado diariamente por autoridades de saúde de todo o mundo para examinar água potável. Assim, bilhões de pessoas são protegidas contra patógenos microbianos.

O teste do LR em Marte seguiu, em essência, esse mesmo teste padrão, com algumas modificações como a adição de vários nutrientes para ampliar as perspectivas de sucesso com organismos estranhos e a marcação desses nutrientes com carbono radioativo. Tais aprimoramentos tornaram o LR sensível às populações microbianas muito pequenas teorizadas para Marte, caso existissem, e reduziu o tempo para a detecção de microrganismos terrestres para cerca de uma hora. Mas, em Marte, cada experimento LR durou por sete dias. Um controle de calor, semelhante ao de Pasteur, foi adicionado para determinar se alguma eventual resposta obtida era biológica ou química.

O LR procurou detectar e monitorar o metabolismo, um indicador muito simples e à prova de falhas de microrganismos vivos. Vários milhares de execuções foram feitas, antes e depois da Viking, com solos terrestres e culturas microbianas, tanto em laboratório quanto em ambientes naturais extremos. Nenhum resultado falso positivo ou falso negativo foi obtido. Isso fortalece muito a confiabilidade dos dados do LR em Marte, mesmo que sua interpretação ainda seja debatida.

Em seu recente livro To Mars with Love (“Para Marte com Amor”, em tradução livre), minha colega co-responsável pelo LR, Patricia Ann Straat, fornece muitos dos detalhes científicos da Viking LR para leigos. Artigos científicos publicados sobre o assunto estão disponíveis em meu site.

Além dessas evidências diretas de vida em Marte obtidas pelo experimento LR da Viking, outras evidências que apoiam ou são consistentes com a vida microbiana existente no Planeta Vermelho foram obtidas pela Viking, por missões subsequentes ou descobertas na Terra. Elas incluem:

  • As missões Viking, Pathfinder, Phoenix e Curiosity encontraram água na superfície em quantidade suficiente para sustentar microorganismos em Marte
  • A ativação ultravioleta (UV) do material da superfície marciana não causou, como proposto inicialmente, a reação positiva detectada no LR: uma amostra colhida sob uma rocha de proteção UV era tão ativa no LR como amostras de superfície;
  • Material orgânico complexo em Marte foi reportado pelos cientistas da Curiosity, possivelmente incluindo o querogênio, que pode ser de origem biológica;
  • As missões Phoenix e Curiosity encontraram evidências de que o ambiente marciano pode ter sido habitável no passado.
  • O excesso de carbono-13 em relação ao carbono-12 na atmosfera marciana é indicativo de atividade biológica, que prefere ingerir o segundo;
  • A atmosfera marciana está em desequilíbrio: seu CO2 deveria ter sido convertido em CO pela luz ultravioleta do sol; o CO2 está sendo regenerado, possivelmente por microorganismos, assim como na Terra;
  • Microrganismos terrestres sobreviveram no espaço exterior da ISS;
  • Material ejetado contendo micróbios viáveis provavelmente chegou a Marte a partir da Terra;
  • Metano já foi detectado na atmosfera marciana; metanógenos microbianos podem ser a fonte;
  • O rápido desaparecimento do metano da atmosfera marciana exige uma fonte de absorção, possivelmente metanotróficos que possam coexistir com metanogênios na superfície marciana;
  • Luzes fantasmagóricas em movimento, semelhantes aos fogo-fátuos da Terra, formadas por ignição espontânea de metano, foram filmadas na superfície marciana;
  • O formaldeído e a amônia, ambos possivelmente indicativos de biologia, podem estar presentes na atmosfera marciana;
  • Uma análise de complexidade independente do positivo detectado pelo LR identificou-o como biológico;
  • Análises do sistema de imagens da missão Viking encontraram líquen terrestre e manchas verdes nas rochas de Marte com a mesma cor, saturação, matiz e intensidade;
  • Uma figura parecida com uma minhoca  estava em uma imagem tirada pelo Curiosity;
  • Grandes estruturas semelhantes a estromatólitos terrestres (formadas por microrganismos) foram encontradas pelo Curiosity; uma análise estatística de suas características complexas mostrou menos de 0,04% de probabilidade que a similaridade seja causada apenas pelo acaso;
  • Nenhum fator adverso à vida foi encontrado em Marte

Em resumo, temos: resultados positivos de um teste microbiológico amplamente utilizado; respostas de apoio de controles fortes e variados; duplicação dos resultados de RL em cada um dos dois locais da Viking; replicação do experimento nos dois locais; e o fracasso, ao longo de 43 anos, de qualquer experimento ou teoria em fornecer uma explicação não biológica definitiva dos resultados da Viking LR.

Qual é a evidência contra a possibilidade de vida em Marte? O fato surpreendente é que não há nenhum. Além disso, estudos de laboratório mostraram que alguns microorganismos terrestres poderiam sobreviver e crescer em Marte.

A Nasa já anunciou que sua sonda Mars 2020 não conterá um teste de detecção de vida. De acordo com o protocolo científico bem estabelecido, acredito que deve ser feito um esforço para colocar possíveis experiências de detecção de vida na próxima missão de Marte. Eu e minha co-pesquisadora propusemos formal e informalmente que o experimento LR, alterado com a capacidade de detectar o metabolismo quiral, seja enviado a Marte para confirmar a existência da vida. Isso porque reações químicas não biológicas não distinguem entre moléculas dextrógiras e levógiras, mas todos os seres vivos o fazem.

Além disso, o Chiral LR (CLR) poderia confirmar e estender as descobertas do Viking LR. Poderia determinar se alguma vida eventualmente detectada seria semelhante à nossa ou se haveria uma gênese separada. Esta seria uma descoberta científica fundamental por si só. Um CLR pequeno e leve já foi projetado, e seu princípio foi verificado por testes. Ele poderia ser facilmente transformado em um instrumento de vôo.

Enquanto isso, um painel de cientistas especialistas deve revisar todos os dados pertinentes do Viking LR, juntamente com outras mais recentes evidências sobre a vida em Marte. Um júri tão objetivo pode concluir, como eu, que o Viking LR encontrou a vida. De qualquer forma, o estudo provavelmente produziria orientações importantes para a Nasa  na busca de seu “Santo Graal”.

Gilbert V. Levin

Gilbert V. Levin é engenheiro e inventor; ele foi o principal pesquisador do experimento Labeled Release nas missões Viking da Nasa em Marte, na década de 1970.