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Estudo de cérebros mostra que habilidades matemáticas de meninos e meninas são semelhantes

Nova pesquisa não encontrou disparidade de gênero na capacidade infantil de desenvolver habilidades matemáticas, questionando uma antiga crença popular

A pesquisadora Jessica Cantlon e uma criança, durante um teste de matemática. Foto: Carnegie Mellon University

Em 1992, a boneca falante Barbie Teen Talk foi lançada contendo uma frase polêmica em seu repertório: “Matemática é tão difícil!”. Na época, o fato foi duramente criticado, mas essa suposição permanece, propagando o mito de que diferenças biológicas na aptidão matemática são responsáveis por fazer com que mulheres não consigam prosperar nos campos da ciência, tecnologia, engenharia e matemática (chamados, em conjunto, de STEM em inglês). 

A cientista americana Jessica Cantlon, da Universidade Carnegie Mellon, liderou uma equipe de pesquisa que fez uma análise abrangente do desenvolvimento cerebral de meninos e meninas. A pesquisa não mostrou nenhuma diferença de gênero na função cerebral ou na habilidade matemática. Os resultados foram publicados na edição de 8 de novembro da revista Science of Learning.

“A ciência não corrobora as crenças populares”, diz Cantlon, professora de neurociência do desenvolvimento na Universidade Carnegie Mellon e principal autora do artigo. “Vimos que os cérebros das crianças funcionam de maneira semelhante, independentemente do sexo, e, com isso, esperamos recalibrar as expectativas sobre o que as crianças podem alcançar na matemática.”

Pioneiros na abordagem, Cantlon e sua equipe usaram neuroimagens para avaliar as supostas diferenças biológicas de gênero na aptidão matemática em crianças pequenas. 

A equipe usou imageamento por ressonância magnética funcional para medir a atividade cerebral em 104 crianças de 3 a 10 anos, sendo 55 meninas, enquanto assistiam a um vídeo educativo sobre tópicos iniciais da matemática, como contagem e adição. Os pesquisadores compararam os exames de meninos e meninas para avaliar a similaridade cerebral. Além disso, a equipe examinou a maturidade cerebral comparando os exames das crianças com os de um grupo de 63 adultos, sendo 25 mulheres, que assistiram aos mesmos vídeos de matemática.

Após diversas comparações estatísticas, Cantlon e sua equipe não encontraram diferenças entre o desenvolvimento cerebral de meninas e de meninos. Além disso, os pesquisadores também não encontraram diferenças nas maneiras pelas quais meninos e meninas processam habilidades matemáticas e ou no engajamento aos vídeos. Por fim, a maturidade cerebral de meninos e meninas foi estatisticamente equivalente quando comparada a de homens ou mulheres do grupo adulto.

“Não somente os meninos e meninas usaram a rede matemática da mesma maneira, como as semelhanças foram evidentes em todo o cérebro”, diz Alyssa Kersey, pós-doutoranda no Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago e primeira autora do artigo. “Este é um lembrete importante de que os seres humanos têm mais semelhanças do que diferenças entre si”.

Os pesquisadores também compararam os resultados do Teste de Habilidade Matemática Inicial — um teste padronizado para crianças de 3 a 8 anos de idade —  de 97 participantes, entre eles 50 meninas, para medir a taxa de desenvolvimento na área. Eles descobriram que a habilidade matemática foi equivalente entre as crianças e não apresentava diferenças de gênero ou idade. A equipe também não encontrou diferenças de gênero entre a habilidade matemática e a maturidade cerebral.

Este estudo baseia-se em um trabalho anterior da equipe, que encontrou desempenho comportamental equivalente em uma série de testes matemáticos entre meninos e meninas.

Cantlon diz acreditar que elementos como a sociedade e a cultura sejam a causa do afastamento de meninas e mulheres jovens dos campos de matemática e STEM. Estudos anteriores mostraram que famílias passam mais tempo brincando com meninos em atividades que envolvem cognição espacial. Muitos professores também passam preferencialmente mais tempo com meninos durante as aulas de matemática, prevendo um desempenho posterior na matéria. Além disso, as crianças costumam ser influenciadas pelas expectativas dos pais sobre suas habilidades matemáticas.

“A socialização típica pode exacerbar pequenas diferenças entre meninos e meninas, que podem aumentar e se transformar na maneira atual que tratamos a presença feminina nas ciências e na matemática”, disse Cantlon. “Precisamos estar cientes dessas origens para garantir que não somos os responsáveis pelas desigualdades de gênero”.

O estudo focou no desenvolvimento da primeira infância, usando um conjunto limitado de tarefas de matemática. Cantlon deseja continuar o trabalho usando uma gama mais ampla de habilidades matemáticas, como processamento espacial e memória, e acompanhar as crianças por muitos anos.

Universidade Carnegie Mellon