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Estudo descobre semelhanças entre efeitos de alucinógenos e experiências de quase-morte

As EQMs continuam um tópico controverso e misterioso, mas novas evidências linguísticas mostram que elas podem ter relação com as mesmas áreas do cérebro afetadas por alucinógenos

A visão de uma “luz no fim do túnel” é uma característica comum dos relatos de EQMs.

Imagine-se em um sonho no qual você sinta um forte sentimento de presença, a experiência mais verdadeira e real da sua vida, enquanto  flutua para longe do seu corpo e observa o seu próprio rosto. Você sente uma pontada de medo quando as memórias de toda a sua vida passam em flashs diante dos seus olhos, mas depois atravessa um limite transcendental e é dominado por um sentimento de felicidade. Embora a perspectiva de contemplar a morte provoque medo em  muitas pessoas, esses aspectos positivos são relatados em algumas das experiências de quase morte (EQMs) sofridas por aqueles que chegaram à beira da extinção  para depois se recuperar.

Relatos de EQMs são extraordinariamente consistentes em caráter e conteúdo. Incluem memórias muito vívidas e envolvem sensações corporais que dão uma forte impressão de realidade, mais reais até do que lembranças de eventos que de fato aconteceram. O conteúdo dessas experiências também inclui as memórias da vida “passando em flashs” e também a sensação de deixar o corpo, muitas vezes vendo a si próprio, além de viajar alegremente através de um túnel em direção a uma luz e sentir-se em conexão com algo maior e universal.

Não é de surpreender que muitos usem as EQMs como evidência da vida após a morte, do céu e da existência de Deus. As descrições sobre deixar o corpo e o sentimento de unidade com o universal parecem quase que escritas a partir de crenças religiosas sobre almas que deixam os corpos físicos na morte e ascendem à felicidade celestial. Mas essas experiências são compartilhadas em uma ampla variedade de culturas e religiões, e, portanto, não é provável que sejam todas reflexos de expectativas religiosas específicas. Em vez disso, essa semelhança sugere que as EQMs podem surgir de algo mais fundamental do que expectativas religiosas ou culturais. Talvez as EQMs reflitam mudanças na forma como o cérebro funciona quando nos aproximamos da morte.

Muitas culturas utilizam drogas como parte de práticas religiosas para induzir sentimentos de transcendência que têm semelhanças com experiências de quase morte. Se as EQMs são fruto da biologia cerebral, talvez a ação desses medicamentos que causam experiências semelhantes nos possa ensinar algo sobre elas. Obviamente, estudos sobre o tema apresentam obstáculos técnicos significativos. Não há como examinar o fenômeno em animais, e salvar um paciente na iminência da morte é muito mais importante do que entrevistá-lo sobre sua experiência. Além disso, muitas das drogas usadas para induzir estados religiosos são ilícitas, o que complicaria qualquer esforço para estudar seus efeitos.

Embora seja impossível examinar diretamente o que acontece com o cérebro durante as EQMs, histórias coletadas a partir dessas experiência fornecem um ótimo recurso para análises linguísticas. Em um novo e fascinante estudo, essas histórias foram comparadas linguisticamente com relatos de experiências com drogas, a fim de identificar alguma droga que cause um efeito semelhante à EQM. O que é mais notável no estudo é o quão precisa essa ferramenta se revelou. Embora as histórias sejam relatos subjetivos abertos, muitas vezes contados anos após o fato, a análise linguística se concentrou não apenas em uma classe específica de drogas, mas também em uma droga específica que causa experiências muito semelhantes às EQMs.

O novo estudo comparou as histórias de 625 indivíduos que relataram EQMs com relatos de mais de 15 mil indivíduos que haviam usado uma dentre 165 drogas psicoativas diferentes. Quando essas histórias foram analisadas linguisticamente, foram encontradas semelhanças entre lembranças de quase morte e experiências com drogas para aqueles que haviam tomado uma classe específica de drogas. Uma substância em particular, a Ketamina, levou a experiências muito semelhantes à EQM. Isso pode significar que a experiência de quase morte pode refletir alterações no mesmo sistema químico no cérebro que é alvo de drogas como a Ketamina.

Os pesquisadores recorreram a uma grande coleção de histórias de EQM que coletaram ao longo de muitos anos. Para comparar as EQMs com as experiências de drogas, os pesquisadores aproveitaram uma vasta amostra de relatos sobre experiências com drogas encontradas no Erowid Experience Vaults, uma coleção de código aberto de contas que descrevem experiências com drogas e várias substâncias.

Neste estudo, as lembranças daqueles que experimentaram EQMs e daqueles que usaram drogas foram comparadas linguisticamente. As histórias foram divididas em palavras individuais, que, por sua vez, foram classificadas de acordo com seu significado e depois contadas. Dessa maneira, os pesquisadores foram capazes de comparar o número de vezes que palavras com o mesmo significado foram usadas em cada história. Eles usaram essa análise numérica para comparar o conteúdo de experiências relacionadas a drogas com o de experiências de quase morte.

Cada uma das drogas incluídas nessas comparações pode ser categorizada por sua capacidade de interagir com um sistema neuroquímico específico no cérebro, e cada substância se enquadra em uma categoria específica (antipsicótico, estimulante, psicodélico, depressor ou sedativo e delirante ou alucinógeno). Poucas similaridades foram encontradas quando os relatos de uma droga estimulante foram comparados com outros da mesma classe de medicamentos estimulantes, e pouca ou nenhuma similaridade foi encontrada entre relatos de experiências com medicamentos estimulantes e EQMs. O mesmo aconteceu com os depressores.

As histórias associadas aos alucinógenos, no entanto, eram muito semelhantes entre si, assim como as histórias ligadas a antipsicóticos e delirantes. Quando as lembranças dos efeitos dessas drogas foram comparadas com as EQMs, as histórias sobre alucinógenos e psicodélicos tiveram as maiores semelhanças com as EQMs, sendo que o medicamento que obteve a maior semelhança foi o alucinógeno Ketamina. A palavra mais fortemente representada nas descrições das experiências de EQM e de Ketamina foi “realidade”, destacando o senso de presença que acompanha o fenômeno. Entre a lista de palavras comuns às duas experiências, destacaram-se as relacionadas à percepção (“ver”, “cor”, “voz”, “visão”), ao corpo (“rosto”, “braço”, “pé”), à emoção (“medo)” e à transcendência (“universo”, “compreensão”, “consciência”).

Os pesquisadores então classificaram as palavras em cinco grandes grupos principais, de acordo com seu significado comum. Esses componentes principais lidavam com percepção e consciência; a dependência de drogas; as sensações negativas; a preparação de drogas; e também um grupo que incluía o estado da doença, religião e cerimônia. As EQMs refletem três desses componentes: o relacionados à percepção e consciência, o do estado da doença, religião e cerimônia, e o do estado da doença e preparação de medicamentos. O componente relacionado à percepção e consciência foi nomeado de “Olhar/Eu” e incluiu termos como cor, visão, padrão, realidade e rosto. O componente “Doença/Religião” continha elementos como ansiedade, cerimônia, consciência e ao “eu”, enquanto o componente relacionado à preparação “Fazer/Coisas” continha elementos como preparar, ferver, cheirar e cerimônia. Novamente, a Ketamina teve a maior semelhança com as EQMs nesse tipo de análise.

Outras drogas que causam experiências semelhantes às EQMs incluem o LSD e a N,N-dimetiltriptamina (DMT). O famoso alucinógeno LSD apresentou uma performance semelhante à da  ketamina no campo das  EQMs quando o evento de quase morte era causado por parada cardíaca. a DMT é um alucinógeno encontrado em plantas da América do Sul e usada em rituais xamanísticos. Ela causa experiências como EQMs e também é produzida no cérebro, levando a especulações de que a DMT endógena possa explicar as EQMs. Não se sabe, no entanto, se os níveis de DMT mudam de maneira significativa no cérebro humano na proximidade da morte, portanto seu papel no fenômeno permanece controverso.

Este estudo apresenta fragilidades significativas porque se baseia em relatórios puramente subjetivos — alguns realizados décadas após o evento. Da mesma forma, não há como averiguar as contas da coleção Erowid, pois não há como provar que qualquer indivíduo de fato usou a droga que alega ter usado ou que acreditava estar tomando. Isso torna ainda mais notável que uma análise linguística de histórias derivadas dessa maneira possa discriminar diferentes classes de medicamentos em suas semelhanças com as EQMs.

A ligação entre experiências de quase morte e o ato de tomar Ketamina é provocativa, mas ainda está longe de comprovar que ambas sejam fruto dos mesmos eventos químicos no cérebro. Os tipos de estudos necessários para demonstrar essa hipótese, como medir alterações neuroquímicas em pacientes em estado críticos, seriam tecnicamente e eticamente desafiadores. Os autores propõem, no entanto, uma aplicação prática dessa relação. Como as experiências de quase-morte (EQM) podem ser transformadoras e ter efeitos profundos e duradouros sobre aqueles que as experimentam, incluindo uma sensação de destemor sobre a morte, os autores propõem que a Ketamina pode ser usada terapeuticamente para induzir um estado semelhante à EQM em pacientes terminais como uma “prévia” do que eles podem experimentar, a fim de aliviar suas ansiedades em relação à morte. Esses benefícios precisam ser ponderados contra os riscos de possíveis efeitos colaterais da Ketamina, que incluem sentimentos de pânico ou ansiedade extrema — efeitos que podem ser contrários ao objetivo da intervenção.

Mais importante, este estudo ajuda a descrever as manifestações psicológicas do morrer. Esse conhecimento pode, em última análise, contribuir para aliviar o medo dessa transição inevitável, mais do que uma dose de qualquer medicamento.