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Maior festival de divulgação científica do Brasil vai se posicionar contra cortes de financiamento

Presente em 85 cidades, edição brasileira do Pint of Science vai alcançar espaços como padarias e galerias de arte

Começa na semana que vem, entre os dias 20 e 22, a edição nacional do festival Pint of Science 2019. O festival, que tem o apoio de Scientific American Brasil, tira os cientistas dos laboratórios e universidades e os leva para as mesas dos bares, para falar de forma descontraída sobre pesquisa e temas de ciência em geral. No tola, 85 cidades brasileiras vão sediar atividades do festival.

Neste ano, o Pint of Scince Brasil  vai acontecer sob o impacto do corte de bolsas de pós-graduação e de verbas para universidades anunciado pelo governo federal nas últimas semanas. Nesta entrevista, a coordenadora nacional, Natália Pasternak, explica como o festival vai abordar os cortes, e sobre a expansão das atividades para além dos bares onde ele se iniciou.

 

Scientific American Brasil — Em plena reta final de organização do festival, vocês tambem foram surpreendidos com o anúncio de corte de verbas para bolsas de pesquisa e custeio de universidades. Como receberam as noticias?

Natália Pasternak — Com bastante preocupação e tristeza. O Pint é um festival que, justamente, uma vez por ano tira o pesquisador de dentro do laboratório e da universidade para que ele possa contra, para a população e para os seus colegas, como está o andamento da pesquisa no Brasil, e para discutir assuntos gerais de ciência em geral que interessem à população… Sempre foi um momento de celebrar o que a gente faz de ciência no Brasil e nos outros paises também é assim. E, de repente, a gente está se vendo numa situação onde talvez não haja o que celebrar no ano que vem.

Toda a ciência do Brasil é feita por pós-graduandos, pós-doutores e pelos pesquisadores principais, que são os chefes dos laboratórios. Nenhum laboratório funciona sem essas pessoas. Se a gente começar a cortar o salário dessa garotada, que é quem realmente produz ciência no país,  não haverá  o que celebrar no ano que vem. Não vamos ter festival, nem ciência, nem tecnologia. E vai demorar uma geração isso para ser consertado.

 

SAB — Estamos vendo algumas iniciativas de protesto contra os cortes, como passeatas em algumas cidades. O Pint of Science vai fazer alguma coisa?

NP — Vamos fazer um manifesto. A ideia é que ele seja disseminado de modo voluntário, ninguém é obrigado a aderir. Está sendo enviado a todos os coordenadores regionais e de cidades do festival, para que seja lido na abertura de cada evento, em cada bar participante.

Queremos informar a população, já que o nosso trabalho é comunicar a ciência do Brasil. Queremos explicar como a ciênica está sendo afetada, como as universidades e a pós-graduação estão sendo afetados e o que isso representa até para um festival que tem o nosso estilo. É nossa obrigação nos posicionarmos e esclarecer a população que talvez nem haja festival no ano que vem. Porque talvez nao tenhamais pesquisa, nem pesquisador nem pós-graduando que possam mostrar o que eles estão fazendo. Preparamos essa campanha para ser feita no Brasil inteiro para esclarecer o que está acontecendo com esses cortes de bolsas.

Acredito que a grande maioria dos coordenadores vai querer [ler o manifesto] pois o Pint é feito em parceria com as universidades e os centros de pesquisa, que estão sendo diretamente afetados por esses cortes.

SAB — Este ano, o festival acontece em 85 cidades do Brasil, e será o maior dentre os Pints do mundo. E não vai acontecer apenas em bares, como têm sido o costume. Por quê?

NP — Sim, também [vai ocorrer] em padarias e até em galerias de arte. A gente deu uma diversificada esse ano . afrouxamos um pouco aquela rigidez. Essa é a primeira vez que o pint vai ocorrer na periferia. Vamos fazer eventos um pouco diferenciados para tentar atingir uma camada da população que nunca conseguimos alcançar. Foi algo audacioso da parte desses coordenadores e eles tem todo apoio da equipe nacional. Vamos ver se é a primeira vez que isso acontece, quero ver como vai ser a recepção.

A gente entende que o intuito não é ficar fechado num rigor formal, tipo “tem que ocorrer num bar, ou durante a noite”. O importante é levar a ciência para fora da universidade, em vários formatos. E isso é algo que a própria direção internacional do festival já entendeu. A gente conseguiu que as regras fossem afrouxadas para a gente poder conquistar mais espaço. O importante é que as pessoas se reunam para falar sobre ciência, seja num bar, numa padaria ou numa galeria.