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Missão espacial pode ter contaminado Lua com vida terrestre — mas, provavelmente, essa vida já estava lá

Missão israelense que falhou em pousar na Lua pode ter levado tardígrados para o astro. Mas é possível que impactos de asteróides já tenham feito o mesmo bem antes.

Uma imagem microscópica de um tardígrado. Foto: Diane Nelson/Diane Nelson, National Park Service, U.S. Department of the Interior

Nos últimos dias, diversas notícias apontaram para um fato obscuro sobre a recente missão lunar israelense, que tentou pousar uma nave na Lua. A iniciativa da organização SpaceIL, que falhou em realizar um pouso suave no dia 11 de abril de 2019, aparentemente carregava alguns milhares de tardígrados desidratados como passageiros.

Na verdade, quando a nave Beresheet caiu na superfície lunar, estava trazendo consigo um novo repositório de informações e história humana, juntamente com diversas amostras de DNA (na forma de folículos capilares e sangue), e os tardígrados.

Agora, no entanto, o fantasma da biocontaminação “deliberada” da Lua está sendo alvo de um certo escrutínio. Tardígrados, os minúsculos “ursos-d’água”, são formas de vida extraordinariamente resilientes. Para um campo como a astrobiologia, que procura vida para além da Terra, um dos grandes desafios em nosso Sistema Solar é evitar criar falsos positivos ao levar biomarcadores terrestres, ou até mesmo organismos, em ambientes extraterrestres, seja a Lua, Marte ou qualquer outro lugar. Há também um consenso de que não queremos atrapalhar ecossistemas alienígenas, especialmente se eles forem delicados e vulneráveis a formas de vida invasivas.

Desde a aurora da era espacial, foram estabelecidos protocolos internacionalmente controlados e acordos amplos sobre esse tipo de proteção planetária. Mas é um campo complicado. Sabemos que nossos esforços de esterilizar naves espaciais são imperfeitos, e sabemos que seres humanos no espaço são um enorme problema de potencial contaminação cruzada. Na Lua, já existem cerca de 100 sacolas de cocô de astronautas das missões Apollo. E, se as vastas ambições do SpaceX forem realizadas, veremos centenas, talvez milhares, de seres humanos cheios de micróbios na superfície de Marte.

Nada disso parece muito útil do ponto de vista da busca por vida da astrobiologia. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que a natureza vem causando contaminação cruzada em planetas nos últimos 4 bilhões de anos. E pequenos animais resistentes, como os tardígrados, provavelmente já foram depositados para muito além da Terra.

O mecanismo que explica isso envolve impactos de asteróides e algo chamado “ejeção por impacto”. Existe uma grande literatura, tanto teórica como experimental, que dá suporte a essas possibilidades. O ponto principal é que grandes impactos de asteróides (isto é, de aproximadamente 1 quilômetro de diâmetro ou mais) tendem a fragmentar o material de um planeta e ejetar um pouco dele para fora, com velocidade de escape ou superior. Além disso, vida microbiana e organismos resistentes, como os tardígrados, aparentemente têm uma boa chance de resistir aos extremos de pressão e temperatura durante esses lançamentos violentos.

Grandes impactos podem enviar bilhões de pedaços da superfície da Terra para o sistema solar, com escala de centímetros. Algumas desses pedaços podem levar milhares de anos para chegar em outros corpos planetários, passando por uma teia invisível de caminhos orbitais, mas eventualmente chegarão a algum lugar. Na verdade, a modelagem computacional do sistema de ejeção por impacto sugere que mesmo lugares distantes como Titã, na órbita de Saturno, possa — embora raramente — ser recipiente de pedaços da Terra ao longo do tempo. Lugares como Marte ou a Lua recebem muito mais detritos.

Do ponto de vista de buscar pistas para a profunda história da vida na Terra, esse tipo de “litopanspermia” é fascinante. Pode ser que, espalhados pela superfície da Lua, estejam amostras semelhantes a fósseis, esporadicamente levadas ao longo da história da vida terrestre. Também é possível que existam amostras, mesmo com milhões de anos, que contenham naturalmente animais desidratados, como tardígrados. É claro que também é possível (embora com uma probabilidade desconhecida) que exista um ecossistema em Marte, povoado pelos descendentes da vida terrestre.

Também tem havido muitos debates sobre se a vida na Terra teve suas origens em outros lugares, antes de ser transportada para cá pelo sistema de ejeção por impacto. Provavelmente, estamos longe de saber a resposta para isso. Mas é concebível que qualquer vida em nosso sistema solar tenha passado os últimos bilhões de anos em um divertido jogo de contaminação natural, misturando-se regularmente.

Isso significa que é uma boa ideia ser despreocupado sobre o lançamento de vida terrestre em lugares como a Lua? Não. Devemos proceder com muito cuidado. Mas, como todas as coisas, é necessário um equilíbrio entre grandes ideisa, exploração, ciência e um senso de ética cósmica.

Caleb A. Scharf