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Novo medicamento contra Alzheimer é aprovado na China, gerando surpresa e dúvidas

A nova droga foca na conexão entre o cérebro e a microbioma intestinal, mas especialistas dizem que outros estudos devem ser conduzidos

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No último fim de semana, autoridades chinesas da área de regulação de medicamentos concederam aprovação condicional para um medicamento derivado de algas marinhas para tratar o Alzheimer, algo que pode agitar o campo de pesquisa após anos de falhas clínicas envolvendo terapias experimentais por parte de grandes empresas farmacêuticas.

O anúncio foi recebido com cautela por médicos e outros profissionais, além de ansiedade para ver os dados completos da empresa farmacêutica responsável, a Shanghai Green Valley Pharmaceuticals. A empresa afirmou que seu medicamento, o Oligomannate, melhorou a função cognitiva de pacientes com Alzheimer de leve a moderado, em comparação com um placebo, durante um estudo de Fase 3, com benefícios observados em pacientes já na quarta semana do estudo e que persistiram pelas 36 semanas do teste.

Já se passaram quase duas décadas desde que o último medicamento para a doença de Alzheimer foi aprovado. O Oligomannato, por sua vez, recebeu pouca atenção nos Estados Unidos durante seu desenvolvimento.

Embora os dados integrais sobre o medicamento ainda não tenham sido disponibilizados, a aprovação condicional dos órgãos reguladores significa que o Oligomannate, também conhecido como GV-971, estará disponível no mercado chinês até o final do ano, segundo a Green Valley. A empresa precisará enviar pesquisas adicionais sobre o mecanismo de ação do medicamento e sobre sua segurança e eficácia a longo prazo à Administração Nacional de Produtos Médicos do país, como informou a Reuters. A Green Valley também disse que lançará um teste de Fase 3 global no próximo ano, com o objetivo de solicitar aprovação em outros países.

“É bom ver que os reguladores de medicamentos na China estão priorizando tratamentos emergentes para a doença de Alzheimer, mas ainda precisamos ter mais evidências de que essa droga é segura e eficaz”, diz Carol Routledge, diretora de pesquisa da Alzheimer’s Research UK, em um comunicado. “Para que qualquer medicamento em potencial obtenha a aprovação pelos reguladores do Reino Unido, precisaremos realizar ensaios maiores em países ao redor do mundo para apoiar as evidências da China”.

Especialistas externos disseram que gostariam que os dados completos mostrassem exatamente como a função cognitiva melhorou para os pacientes tratados em relação aos que receberam placebo, e o quão significativo isso foi na vida dos pacientes.

Em vez de ser projetado para varrer o acúmulo de proteínas no cérebro, como foi o caso de dezenas de outros tratamentos experimentais contra o Alzheimer, o Oligomannate foi desenvolvido para modular a conexão entre o cérebro e o conjunto de comunidades bacterianas no intestino conhecido como microbioma.

A conexão entre o microbioma e a saúde em geral é objeto de um campo de pesquisa relativamente novo e ainda em evolução, com alguns cientistas buscando entender como as bactérias podem influenciar o surgimento de doenças, incluindo a doença de Alzheimer.

Maria Carrillo, diretora científica da Alzheimer’s Association, diz que o desenvolvimento do Oligomannate mostra como o campo se expandiu para além dos medicamentos que focavam apenas no acúmulo de proteínas no cérebro, o que, segundo ela, “é o primeiro passo necessário para uma abordagem combinada a fim de tratar o Alzheimer e outras doenças parecidas”.

Sobre o próximo teste, que a Green Valley afirma que incluirá localizações nos EUA, Carrillo diz está curiosa para ver como a droga se sairá em uma população mais diversa, e que ela espera que os pesquisadores acompanhem os pacientes por mais tempo. Geralmente, diz ela, ensaios clínicos de Fase 3 sobre a doença de Alzheimer duram o dobro período do experimento chinês, que totalizou nove meses.

Joy Snider, neurologista da Universidade de Washington em St. Louis, diz esperar que o próximo estudo inclua mais pessoas do que as cerca de 800 envolvidas no estudo anterior.

“Estamos sempre animados para ter um potencial novo tratamento”, diz Snider, “mas certamente não o prescreveria para meus pacientes com base em um único estudo ou na aprovação de outro país, não antes que saibamos mais sobre ele”.

Em setembro, um grupo de cientistas chineses, incluindo alguns da Green Valley, publicou um estudo na revista Cell Research que descrevia, em camundongos, uma conexão entre um microbioma intestinal alterado e a neuroinflamação que alguns pesquisadores pensam contribuir para a doença de Alzheimer. Eles relataram que o Oligomannato “suprimiu” esse desequilíbrio bacteriano no intestino e “controla a neuroinflamação e reverte o comprometimento da cognição”. Eles acrescentaram que os resultados do estudo com camundongos “sugerem uma nova estratégia” para as terapias de Alzheimer ao “remodelar a microbiota intestinal.” No entanto, muitas terapias experimentais curaram doenças em ratos sem demonstrar nenhum benefício nas pessoas.

O estudo não foi projetado para demonstrar que a droga funciona através desse mecanismo, diz Jeffrey Cummings, da Cleveland Clinic, que é consultor de Green Valley há cerca de dois anos. Mas ele diz que o próximo teste global tentará mostrar a maneira exata pela qual a droga parece afetar a cognição.

Embora muitos pesquisadores nos Estados Unidos tenham sido pegos de surpresa pela aprovação, Cummings diz que talvez não seja surpreendente que empresas de outros países estejam fazendo avanços na doença de Alzheimer.

“Estamos em um período de inovação global com o qual não estamos acostumados”, diz ele. “O Alzheimer é uma doença global e um desafio à saúde e dignidade dos idosos em todo o mundo.”

Cummings observa que alguns detalhes do ensaio clínico foram apresentados em uma conferência científica em 2018. Ele acrescenta: “precisamos estar abertos a essas ideias ao mesmo tempo em que precisamos mantê-las sob um escrutínio minucioso”.

Pesquisadores especializados na doença de Alzheimer expandiram suas abordagens após anos de foco na chamada hipótese amilóide, que afirmava que o acúmulo de uma proteína chamada beta amilóide em placas cerebrais causava a doença. Os testes com medicamentos que eliminaram essas placas falharam diversas vezes em levar a melhorias cognitivas nos pacientes.

No mês passado, no entanto, a fabricante de medicamentos Biogen anunciou que tentaria obter a aprovação da agência reguladora americana Food and Drug Administration para um medicamento de remoção da amilóide chamado aducanumab, que anteriormente havia falhado em dois ensaios. A empresa diz que uma nova análise de alguns dados do estudo mostrou uma redução no declínio cognitivo entre alguns pacientes com doença de Alzheimer precoce.

Andrew Joseph

Publicado originalmente em 4 de novembro de 2019 na STAT, e reproduzido com permissão.