Notícias

O MDMA, o princípio ativo do ecstasy, parece ser um tratamento promissor para o estresse pós-traumático

Combinada com psicoterapia, a droga mostra resultados impressionantes em testes clínicos, mas regulação ainda é um entrave.

Unsplash

Na primeira vez que Lori Tipton experimentou o MDMA, ela não acreditava que faria alguma diferença. “No começo, eu estava muito nervosa”, lembra.

O MDMA é o principal ingrediente da droga conhecida como ecstasy ou bala. Mas Tipton não estava ingerindo pílulas compradas na rua para ficar chapada. Ela estava tentando tratar seu Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), participando de um experimento clínico.

Depois de tomar uma dose de MDMA puro, Tipton se deitou em uma sala silenciosa com dois psicoterapeutas especialmente treinados. Eles se sentaram ao seu lado, enquanto ela se lembrava de alguns de seus traumas mais profundos, como quando encontrou o corpo de sua mãe após ela ter matado duas pessoas e se suicidado. 

Sob efeito do MDMA, conta Tipton, ela pôde revisitar esse momento sem o terror e o pânico habituais. “Fui capaz de sentir empatia por mim mesma.”

Agora, cientistas estão testando como o MDMA farmacêutico pode ser usado em combinação com psicoterapia para ajudar pacientes com uma forma grave de transtorno pós traumático, que não responde a outros tratamentos. Ao contrário de drogas de rua, que podem ser adulteradas e inseguras, os pesquisadores usam uma forma pura e precisamente dosada da droga.

O MDMA ainda não está disponível como tratamento para o TEPT fora dos experimentos clínicos. Mas os pesquisadores já estão buscando a aprovação da agência reguladora americana Food and Drug Administration, que, em 2017, concedeu status de terapia para a psicoterapia assistida por MDMA.

Cientistas estão conduzindo ensaios clínicos de fase 3 em mais de uma dúzia de campos. Os médicos que tratam de estresse pós traumático estão esperançosos de que a próxima rodada de testes mostre que o tratamento com MDMA é uma opção eficaz para aliviar o sofrimento de pacientes.

“O problema é que não tivemos um novo medicamento para tratar o TEPT em mais de 17 anos”, diz a médica Sue Sisley, presidente do Scottsdale Research Institute, com sede no Arizona, EUA. “Existem certas doenças que são intratáveis e não respondem à terapia tradicional, e então precisamos começar a pensar de forma mais ampla.”

Mas o MDMA é uma substância categorizada como “Classe I” pelo governo americano, o que significa que atualmente não tem uso médico aprovado e possui um “alto potencial de abuso” (algo que os proponentes terapêuticos do MDMA contestam). Por causa dessa designação, os atuais estudos de pesquisa são financiados pela Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS).

“ME SENTIA EM PERIGO EM QUALQUER LUGAR”

Tipton, que tem 40 anos e é de Nova Orleans, lutou por anos contra o TEPT antes de ser tratada com o MDMA. Ela diz que a vida com o transtorno era como “ver o mundo através de óculos sujos”.

“Eu me sentia em perigo em qualquer lugar,” conta ela. “Sentia que tinha que estar sempre vigilante, porque, caso contrário, algo ruim iria acontecer.”

Tipton descreve sua juventude como um catálogo de tragédias e traumas. Tudo começou quando seu irmão teve uma overdose fatal na casa dela. Após sua morte, ela começou a cuidar da mãe, que lutava contra doenças mentais. Em 2005, a mãe de Tipton matou duas pessoas e depois se matou. Foi a filha que encontrou os corpos.

“Eu me desassociei completamente. Não podia acreditar no que estava vendo”, conta

Os traumas continuaram a se acumular. A casa onde ela morava foi destruída quando o furacão Katrina atingiu Nova Orleans, e, no ano seguinte, ela foi estuprada.

Com o passar dos anos, Tipton teve ataques de pânico e forte ansiedade. Ela tentou de tudo para tratar seus sintomas: psicoterapia, antidepressivos, hipnoterapia, meditação e yoga. Nada funcionou. Ela passou a vida exausta e apática, constantemente nervosa e tendo dificuldades em ficar íntima de pessoas próximas a ela.

Após tudo isso, Tipton se inscreveu em ensaios clínicos de fase 2 para a psicoterapia assistida por MDMA.

TERAPIA E MDMA COMBINADOS

O MDMA foi sintetizado pela primeira vez em 1912, e seus benefícios terapêuticos foram estudados na década de 1970. Mas esses estudos foram interrompidos quando o governo federal dos EUA classificou a substância como uma droga da Classe I, em 1985,  devido à crescente popularidade do ecstasy como uma droga recreativa.

Nos últimos anos, pesquisas sobre o tema foram retomadas, financiadas por patrocinadores privados, como a MAPS

O protocolo de tratamento dos testes atuais exige um período de psicoterapia de 12 semanas, com terapeutas especialmente treinados. Durante esse tempo, há duas ou três sessões que duram o dia todo e começam com o paciente tomando uma pílula com doses calibradas de MDMA.

Uma equipe de dois terapeutas, geralmente um homem e uma mulher, orienta o paciente durante a sessão de oito horas sob efeito do MDMA. Posteriormente, há uma terapia de acompanhamento sem o medicamento para ajudar o paciente a processar sentimentos, pensamentos ou impressões que surgiram sob a influência da droga.

“O MDMA permite que você entre em contato com sentimentos e sensações de uma forma muito mais direta”, explica Saj Razvi, um psicoterapeuta do Colorado e um dos pesquisadores clínicos nos estudos da fase 2.

O modo como o MDMA age no cérebro exatamente é algo ainda não totalmente compreendido. A droga psicoativa estimula substâncias químicas como a serotonina e a ocitocina. Também diminui a atividade na amígdala, parte do cérebro responsável por processar o medo. Isso pode levar a um estado caracterizado por maiores sentimentos de segurança e de conexão social.

“O trauma acontece no isolamento”, diz Razvi. “Uma das coisas que o MDMA faz é te lembrar que você não está sozinho”.

TRANSTORNO EM REMISSÃO

Após os estudos de fase 2 serem concluídos em 2017, os pesquisadores descobriram que 54% dos 72 pacientes que tomaram MDMA melhoraram tanto a ponto de não mais se encaixarem no diagnóstico de TEPT (em comparação com 23% do grupo de controle).

E os efeitos benéficos do tratamento parecem aumentar com o tempo. Um ano depois, o número que não tinha mais o transtorno subiu para 68%.

“Isso foi surpreendente”, diz Sisley. “Mesmo com os melhores tratamentos farmacêuticos, raramente se vê pacientes entrando em remissão”.

Ela diz que espera oferecer a terapia aos seus pacientes o mais rápido possível, talvez até antes da droga receber a aprovação completa das agências reguladoras.

Brad Burge, porta-voz da MAPS, diz que, além de patrocinar os estudos com MDMA, a organização está trabalhando para que a Food and Drug Administration inclua o medicamento em seu programa de acesso expandido, que pode permitir que certos pacientes usem substâncias que ainda estão sendo estudadas.

Burge diz que o objetivo é tornar a psicoterapia assistida por MDMA disponível como um tratamento prescrito em uma clínica especializada para qualquer pessoa com transtorno do estresse pós-traumático.

E a MAPS está trabalhando para persuadir os planos de seguro públicos e privados para cobrir o tratamento, segundo Burge. Ele estima que, para os pacientes que pagam integralmente, um tratamento de 12 semanas custaria entre 5 e 10 mil dólares.

A maior parte do custo é para a terapia guiada, e não para a droga de fato.

TRATAMENTO TRANSFORMADOR

Tipton descreve seu tratamento com MDMA como “transformador”.

Ela foi capaz de se livrar dos sentimentos perturbantes sobre a morte de sua mãe. E também descobriu outras memórias: sentimentos de alegria que haviam sido ocultados.

Na sua última sessão com MDMA, Tipton conseguiu falar sobre seu episódio de violência sexual.

Um ano depois, ela foi reavaliada e não foi mais diagnosticada com TEPT. Tipton diz que acredita que o tratamento salvou sua vida.

“Tudo está ao meu alcance, como nunca antes”, ela diz. “Desejo isso para todos.”

 

Will Stone

Esta reportagem faz parte de uma parceria que inclui KJZZ, NPR e Kaiser Health News.