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Ondas do mar estão ficando mais fortes devido ao aquecimento global

Áreas costeiras devem sofrer danos maiores nos próximos anos, sugerem previsões

O aumento da energia em ondas, decorrente das mudanças climáticas, significa mais desafios e riscos para áreas costeiras. Imagem: IHCantabria

O aumento do nível do mar coloca as áreas de costa na linha de frente dos impactos das mudanças climáticas, mas uma nova pesquisa mostra que elas enfrentam outras ameaças também ligadas ao clima. Em um estudo publicado na revista Nature Communications no começo de janeiro, uma equipe de pesquisadores mostra que a energia das ondas oceânicas está crescendo em todo o mundo, e eles encontraram associações diretas entre esse aumento e o aquecimento dos oceanos.

Uma ampla gama de tendências e projeções de longo prazo carregam as impressões digitais da mudança climática, incluindo a elevação do nível do mar, o aumento das temperaturas globais e o declínio do gelo marinho. Análises do clima marinho global até agora identificaram aumentos nas velocidades do vento e nas alturas das ondas em áreas do oceano situadas nas latitudes mais altas em ambos os hemisférios. O crescimento foi maior nos casos de condições mais extremas (por exemplo, ondas geradas durante o inverno) do que para as condições amenas. No entanto, um sinal global de mudança, e a correlação entre os aumentos localizados nas alturas das ondas e o aquecimento global, eram elementos que até então não haviam sido detectados.

O novo estudo concentrou-se na energia contida nas ondas do oceano, que é transmitida do vento e transformada em movimento de ondas. Essa métrica, chamada de potência da onda, vem aumentando em associação direta com o aquecimento da superfície do oceano ao longo da história. O aquecimento do oceano, medido como uma tendência crescente nas temperaturas da superfície do mar, tem influenciado os padrões de vento em todo o mundo, e isso, por sua vez, está tornando as ondas do oceano mais fortes.

“Pela primeira vez, identificamos um sinal global do efeito do aquecimento global no comportamento das ondas. Na verdade, a energia das ondas aumentou globalmente 0,4% ao ano desde 1948, e esse aumento está correlacionado com o aumento das temperaturas na superfície do mar, tanto globalmente quanto por região do oceano”, disse o autor principal do estudo, Borja G. Reguero, que é pesquisador do Instituto de Ciências Marinhas da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz.

A mudança climática está modificando os oceanos de diferentes maneiras, incluindo mudanças na circulação da atmosfera oceânica e aquecimento da água, de acordo o coautor do estudo Inigo J. Losada, diretor de pesquisa do Instituto de Hidráulica Ambiental da Universidade de Cantábria (IHCantabria), onde o estudo foi desenvolvido.

“Esta pesquisa mostra que a energia das ondas globais pode ser um indicador potencialmente valioso do aquecimento global, semelhante à concentração de dióxido de carbono, à elevação do nível do mar global ou à temperatura atmosférica na superfície global”, conta Losada.

Entender como a energia das ondas do oceano responde ao aquecimento oceânico tem implicações importantes para as comunidades costeiras, incluindo a previsão de impactos na infraestrutura, nas cidades costeiras e nos pequenos estados insulares. Ondas oceânicas determinam onde as pessoas constroem infraestrutura, como portos, ou exigem proteção através de defesas costeiras, como quebra-mares e diques. De fato, a ação das ondas é um dos principais agentes da mudança e inundação costeira, e à medida que a energia das ondas aumenta, seus efeitos podem se tornar mais profundos. A elevação do nível do mar agravará ainda mais esses efeitos, permitindo que mais energia das ondas atinja o litoral.

Enquanto o estudo revela uma tendência de longo prazo de aumento da energia das ondas, os efeitos deste aumento são particularmente aparentes durante as temporadas de tempestades mais energéticas, como ocorreu no inverno de 2013-14 no Atlântico Norte, que impactou a costa oeste da Europa, ou a devastadora temporada de furacões de 2017 no Caribe, que ofereceu uma forte lembrança do poder destrutivo e dos impactos econômicos das tempestades costeiras.

Os efeitos da mudança climática serão particularmente visíveis na costa, onde humanos e oceanos se encontram, de acordo com Fernando J. Méndez, coautor do estudo e professor associado da Universidade de Cantabria. “Nossos resultados indicam que as análises de risco que negligenciam as mudanças no poder das ondas e tomam o nível do aumento do mar como o único fator podem subestimar as conseqüências da mudança climática e resultar em adaptação ruim ou insuficiente”, diz ele.

Universidade da Califórnia em Santa Cruz