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Percepção humana de cores não depende inteiramente da linguagem, sugere novo estudo

Estudo com paciente que perdeu a capacidade de nomear cores após um derrame revela detalhes inéditos sobre a categorização de cores no cérebro

Após o paciente RDS (identificado apenas pelas iniciais para preservar a privacidade) sofrer um derrame, ele passou a sofrer de um efeito colateral raro e incomum: quando via algo vermelho, azul, verde ou de qualquer outro tom cromático, não conseguia identificar o nome da cor do objeto.

Explorando a condição de RDS, um estudo publicado em 3 de setembro na revista Cell Reports analisou como a linguagem molda o pensamento humano. Neurocientistas e filósofos vêm, há muito tempo, debatendo a interação entre a linguagem e o pensamento: os nomes moldam a maneira que categorizamos o que percebemos, ou eles correspondem a categorias que surgem da nossa percepção?

Para nomear a cor vermelha, por exemplo, pensamos em um objeto vermelho como algo dentro de um espectro vagamente definido que engloba o conceito “vermelho”. Nesse sentido, realizamos um ato de categorização cada vez que chamamos algo pelo nome — agrupamos as cores em categorias discretas para identificar a mostarda como um tom de amarelo, por exemplo, ou colocar o ciano na família do azul.

“Percebemos as cores como contínuas. Não há limites nítidos entre, digamos, o vermelho e o azul. Ainda assim, agrupamos conceitualmente as cores em categorias associadas com seus nomes”, diz Paolo Bartolomeo, neurologista do Instituto de Cérebro no Hospital Salpêtrière, em Paris, e autor sênior do estudo. “Em nossa pesquisa, tivemos a oportunidade única de estudar o papel da linguagem na categorização de cores, testando um paciente que não conseguia nomear cores após um derrame”.

Muitos cientistas acreditam que a categorização de cores depende de uma abordagem “de cima para baixo”, do sistema da linguagem para o córtex visual. Acredita-se que os nomes de cores fiquem armazenados no hemisfério esquerdo do cérebro, e que dependem da atividade relacionada à linguagem do mesmo hemisfério.

Por outro lado, as descobertas mais recentes apoiam estudos de neuroimagem que sugerem que a categorização de cores é distribuída bilateralmente no cérebro humano.

Os pesquisadores mostraram a RDS discos contendo duas cores da mesma categoria (por exemplo, dois tons de azul) ou de categorias diferentes (por exemplo, marrom e vermelho), e pediram para ele identificar as cores da mesma categoria. Eles também pediram para que ele nomeasse 34 amostras de cores apresentadas em uma tela do computador; oito dessas amostras eram acromáticas (branco, preto e cinza), e 26 eram cromáticas.

Antes do derrame, RDS percebia e nomeava as cores normalmente. Após o acidente vascular cerebral, um exame de ressonância magnética revelou uma lesão na região esquerda do cérebro. Aparentemente, essa lesão rompeu a ligação entre a memória de nomes e a percepção visual das cores, além do sistema de linguagem. No entanto, RDS ainda conseguiu agrupar a maioria das cores — mesmo aquelas que ele não conseguia nomear —  em categorias como escuro ou claro, ou como uma mistura de outras cores.

“Ficamos surpresos com a capacidade de RDS nomear consistentemente as chamadas cores acromáticas, como preto, branco e cinza, em oposição à nomeação de cores cromáticas, como vermelho, azul e verde, que foi prejudicada”, diz a primeira autora do estudo, a doutoranda Katarzyna Siuda-Krzywicka. Isso sugere que nosso sistema de linguagem pode processar o preto, o branco e o cinza de maneira diferente das cores cromáticas. Essas dissociações levantam questões importantes sobre como os diferentes sinais relacionados à cor são segregados e integrados no cérebro, diz ela.

Para garantir que o comportamento de RDS não refletia uma organização cerebral anormal, os pesquisadores compararam o funcionamento de suas áreas cerebrais não afetadas com o das mesmas áreas em indivíduos saudáveis, e desenvolveram um teste não verbal de categorização de cores. “Nosso resultado — que suas categorias de cores eram independentes da linguagem — pôde ser generalizado para adultos saudáveis”, diz Bartolomeo.

Mas, se não é da linguagem, de onde vem as categorias de cores, então? Siuda-Krzywicka sugere que estudos futuros podem explorar a implementação da categorização de cores em primatas não humanos, bem como no cérebro humano, e como a aquisição da linguagem interage com a categorização de cores nos estágios do desenvolvimento infantil.

Cell Press