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Segundo maior surto de ebola da história completa um ano e continua a crescer

Apesar do uso de vacinação e tratamento, a epidemia na África Central já resultou em 1.700 mortes; OMS declarou emergência internacional

Agente de saúde leva um bebê recém-nascido suspeito de ter ebola para um centro de tratamento, na República Democrática do Congo. Crédito: John Wessels/Getty Images

Esta semana marca o aniversário de um ano do atual surto de ebola, centrado na República Democrática do Congo (RDC). Declarado em 1º de agosto de 2018, na província de Kivu do Norte, o surto atingiu mais de 2.500 pessoas e matou cerca de 1.700 — o segundo pior da história, atrás apenas do de 2014 a 2016 na África Ocidental, que deixou mais de 28.000 pessoas doentes e matou mais de 11.000.

Em 17 de julho, a Organização Mundial de Saúde declarou o mais recente surto uma Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional — seu nível de alarme mais alto. Após essa designação, o Banco Mundial liberou cerca de 300 milhões de dólares para esforços globais de ajuda. Mas, apesar da disponibilidade de financiamento, vacinas e tratamento, as pessoas continuam sendo infectadas e morrendo — inclusive em áreas onde a doença já havia sido erradicada. Agora, a ebola também está atingindo regiões mais populosas; uma segunda morte foi relatada recentemente em Goma, cidade do Congo com dois milhões de habitantes e importante centro de viagens.

“Certamente não esperávamos que o surto ia continuar um ano após seu início”, conta Michelle Gayer, diretora de saúde emergencial do Comitê Internacional de Resgate, organização humanitária que tem ajudado em mais de 70 instalações de saúde. “Está matando mais pessoas do que deveria, apesar da vacinação e dos tratamentos. Ainda está acontecendo, e dessa vez afetando mais mulheres do que os surtos anteriores.” Cerca de 67% das pessoas infectadas são mulheres, e de 18 a 20% têm menos de 18 anos, diz Gayer. O surto ficou inicialmente restrito ao norte, em cidades como Beni, e depois se moveu para o sul, diz ela. Beni estava livre de novos casos há algum tempo — mas, no último mês, mais da metade do total de casos era naquela cidade, acrescenta.

Este é o primeiro surto de ebola em que vacinas estão sendo amplamente utilizadas. Feita pela empresa farmacêutica Merck, a vacina não foi licenciada comercialmente, mas está sendo dada sob um protocolo de “uso compassivo”, porque a ebola é frequentemente uma doença fatal. Os profissionais de saúde empregaram uma estratégia de “vacinação em anel”, vacinando aqueles que entraram em contato com pessoas infectadas, e também os contatos desses contatos. A vacina é 97,5% eficaz. Mas nem todo mundo pode recebê-la antes de ficar doente, e muitas pessoas acabam escondendo a doença por causa do estigma, diz Gayer.

A questão da violência atormenta a República Democrática do Congo há décadas, mas Gayer não acredita que ela seja a responsável direta pela gravidade do surto. Alguns profissionais de saúde foram mortos — não como resultado do conflito militar em curso no país, mas por desconfiança dos trabalhadores e pela falta de conhecimento sobre a doença contra a qual eles estão lutando.

“Acredito que isso tenha a ver com uma questão central, que é a do envolvimento da comunidade e da confiança”, diz Gayer. “Esse foi provavelmente o fator mais crítico.” Segundo ela, os profissionais de saúde possuem uma compreensão inadequada das necessidades das pessoas e não conseguem se envolver com eles da maneira correta. Se você tem malária ou não tem água potável, “é muito confuso que alguém te diga para lavar as mãos ou ter cuidado com a febre, porque você pode ter ebola”, observa Gayer. “Queremos ter certeza de que não negligenciaremos crianças que têm pneumonia ou mulheres que querem dar à luz” enquanto tratam do surto de ebola.

Regularmente, a equipe de Gayer conversa pessoalmente com grupos de pessoas em vilas e cidades afetadas pela epidemia, ela conta. Eles se encontram com mulheres que querem saber o que acontece caso estejam grávidas, por exemplo. Também convidam membros da comunidade para irem às clínicas e ajudarem a montar as estruturas de isolamento para os pacientes, “para que eles não pareçam muito assustadores”, ela diz. Pessoas que sobreviveram ao ebola também estão envolvidas na ajuda aos pacientes.

Mas, como novos casos continuando a surgir, um fim para o surto permanece ilusório. “Por enquanto, podemos dizer que não há sinais de qualquer melhora significativa”, diz Chandy John, presidente da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene. Ele diz que a declaração de emergência e os 300 milhões do Banco Mundial provavelmente vão ajudar, mas é preciso de mais ajuda e financiamento. “Se países e organizações se unirem para obter os fundos necessários, acho que essa epidemia pode ser contida”, acrescenta. “Por outro lado, o segundo caso em Goma destaca o potencial de disseminação para além das áreas atuais. Portanto, a necessidade de trabalho adicional em todas essas áreas é urgente”.

Gayer concorda: “Eu acredito que teremos sucesso, mas vai demorar muito”, diz ela. “E não há razão para que a doença em si não se torne endêmica no Congo. E isso é outra coisa com a qual temos que lidar, caso aconteça. ”

Tanya Lewis