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Sociedade Ocidental nasceu do tabu da Igreja contra o incesto, diz pesquisa

Estudiosos associam a proibição da Igreja Católica de casamento entre primos a partir da Idade Média ao surgimento do modo de vida característico do Ocidente

Catedral de Siena, na Itália. Foto: Shutterstock

No que pode ser uma surpresa para os livres-pensadores e não-conformistas que alegremente desafiam as atuais convenções sociais em cidades como Nova York, Paris, Sydney e outros centros da cultura ocidental, um novo estudo traça as origens do individualismo contemporâneo à poderosa influência da Igreja Católica na Europa há mais de 1.000 anos, durante a Idade Média.

Segundo os pesquisadores, as políticas estritas da Igreja para o casamento e a estrutura familiar alteraram completamente as normas sociais existentes e levaram ao que eles chamam de “variação psicológica global” — grandes mudanças no comportamento e no pensamento que transformaram a própria natureza das populações européias.

O estudo, publicado esta semana na revista Science, combina antropologia, psicologia e história para remontar a evolução do Ocidente, partindo de suas raízes em sociedades “baseadas em famílias” para chegar no conceito que conhecemos hoje. Essas sociedades antecedentes consistiam em clãs, derivados de redes de laços interconectados, que cultivavam conformidade, obediência e lealdade em grupo — ao mesmo tempo em que eram menos confiantes e justos com estranhos, e desencorajavam a independência e o pensamento analítico.

Os autores propõem que o mecanismo dessa evolução foi a obsessão da Igreja pelo incesto e sua determinação de acabar com os casamentos entre primos, sobre os quais essas sociedades anteriores foram construídas. O resultado, diz o artigo, foi o surgimento de “famílias pequenas e nucleares, laços familiares fracos e mobilidade residencial”, juntamente com menos conformidade, mais individualidade e, finalmente, um conjunto de valores e uma perspectiva psicológica que caracterizam o mundo ocidental. O impacto dessa mudança foi claro: quanto maior a exposição de uma dada sociedade à Igreja, maior o efeito.

Por volta de 500 d.C., “a Igreja ocidental, ao contrário de outras vertentes do Cristianismo e de outras religiões, começou a implementar esse programa de casamento e família, que sistematicamente quebrou os clãs de parentes da Europa em famílias nucleares monogâmicas”, explica Joseph Henrich, presidente do departamento de biologia evolutiva humana da Universidade Harvard e autor sênior do estudo. “E sustentamos que isso resultou nas conhecidas diferenças psicológicas.”

Comparando  populações baseadas em laços familiares e populações onde a influência da igreja foi maior, Henrich e seus colegas identificaram diferenças significativas em quase tudo, desde a frequência de doações de sangue até o uso de cheques (em vez de dinheiro), além de diferentes resultados em testes clássicos da psicologia — como em um dillema hipotético que testa se a pessoa mentiria para ajudar um amigo. Eles analisaram até o número de multas de estacionamento não pagas acumuladas por delegados de diversos países nas Nações Unidas.

“Queríamos realmente combinar os tipos de medidas que os psicólogos usam, que fornecem algum tipo de controle no laboratório, com medidas do mundo real”, diz Henrich. “Nós realmente gostamos da ideia das multas de estacionamento. Selecionamos diplomatas da ONU de todo o mundo na cidade de Nova York e vimos como eles se comportaram.”

As regras mudaram desde então, mas, durante muitos anos, diplomatas que estacionavam ilegalmente não eram obrigados a pagar multas dadas pela polícia. Ao analisar essas multas, os pesquisadores descobriram que, ao longo de um ano, diplomatas de países com níveis mais altos de “intensidade de parentesco” — ou seja, prevalência de clãs e famílias muito restritas em uma sociedade — tinham muito mais multas não pagas do que aqueles de países sem esse histórico. Diplomatas da Suécia e do Canadá, por exemplo, não tiveram multas pendentes no período estudado, enquanto o número de multas foi de cerca de 249 para o Kuwait, 141 para o Egito e 126 para o Chade.

Henrich atribui esse fenômeno à mentalidade insular característica das sociedades intrinsecamente familiares. Embora elas construam grupo próximos e muito cooperativos, esse senso de cooperação não vai além dos próprios grupos. “A ideia é que você se preocupe menos com estranhos, com pessoas que você não conhece e pessoas de fora”, diz ele.

O próprio Ocidente não é uniforme nessa questão. Trabalhando com dados de casamento entre primos de 92 províncias da Itália (derivados de registros da Igreja de pedidos de dispensa para permitir o casamento), os pesquisadores descobriram que os italianos de províncias com taxas mais altas de casamento entre primos recebem mais empréstimos de familiares e amigos (em vez de bancos), usam menos cheques (preferindo dinheiro) e mantêm mais de sua riqueza em dinheiro vivo, em vez de deixá-la em bancos, ações ou outros ativos financeiros. Eles também observaram menores quantidades de doações de sangue voluntárias e gratuitas nesses grupos.

Durante a pesquisa, Henrich e seus colegas criaram um banco de dados e calcularam a “duração da exposição” à Igreja ocidental de todos os países do mundo, bem como de 440 “regiões européias subnacionais”. Depois, eles testaram suas previsões sobre o influência da igreja em três níveis: globalmente, em escala nacional; regionalmente, dentro dos países europeus; e entre os filhos adultos de imigrantes na Europa de países com diferentes graus de exposição à igreja.

Henrich observa que o foco da Igreja nas proscrições de casamento subiu a um nível obsessivo. “Eles chegaram à conclusão de que casar e fazer sexo com parentes, mesmo que fossem primos, era algo como incesto entre irmãos, pois isso deixava Deus com raiva”, diz ele. “E fenômenos como pragas foram descritos como castigos divinos”.

O tabu contra o casamento entre primos pode ter ajudado a igreja a crescer, acrescenta Jonathan Schulz, professor assistente de economia na Universidade George Mason e primeiro autor do artigo. “Por exemplo, é mais fácil converter pessoas depois que você se livra dos deuses ancestrais. E a maneira de se livrar dos deuses ancestrais é se livrar de seus fundamentos: organização da família ao longo de linhagens e a retomada da descendência ancestral”, ele diz.

As sociedades ocidentais, educadas, industrializadas, ricas e democráticas da Europa Ocidental, e o que os autores chamam de “seus descendentes culturais na América do Norte e na Austrália”, são há muito tempo reconhecidas como isoladas do resto das populações do mundo por sua independência de pensamento e por outros traços, como a disposição de confiar em estranhos.

O novo artigo é o primeiro a vincular sistematicamente essa variação psicológica à Igreja ocidental. “Este estudo é realmente pioneiro e tem uma interdisciplinaridade  única”, diz Thomas Talhelm, professor associado de ciências do comportamento na Universidade de Chicago, que não participou do trabalho. “Se fôssemos questionar pesquisadores em antropologia, psicologia cultural e evolução e perguntar-lhes o que explica o mundo Ocidental, teríamos vários tipos de respostas. E poucos se concentrariam especificamente na Igreja ou no núcleo familiar. ”

Quanto ao impacto da pesquisa nessas disciplinas, Talhelm espera que algumas pessoas se oponham à natureza abrangente de suas conclusões. “Sempre que uma teoria da cultura humana assume um tamanho tão grande, haverá exceções locais e casos únicos”, diz ele. “Alguns pesquisadores são profundamente cautelosos com generalizações e teorias abrangentes. No entanto, essa cautela ignorará a utilidade da teoria e a consistência das descobertas.”

David Noonan