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Tecnologia desenvolvida pela Nasa ajuda brasileiros a prenderem pedófilos

Cinquenta anos depois da chegada do homem à Lua, as tecnologias da corrida espacial continuam impactando nossas vidas — incluindo uma criada por um brasileiro que, na adolescência, hackeou a Nasa

Imagem captada pelo telescópio TESS, da Nasa, que utiliza um tipo de algoritmo para identificação de planetas e estrelas. Imagem: Nasa

Há 50 anos, o homem pisava pela primeira vez na Lua. A missão Apollo 11 se consagrou não somente como um marco histórico, mas também tecnológico — a corrida espacial impulsionou a criação de diversas novas tecnologias, que não ficaram restritas apenas ao ambiente espacial, mas também começaram a impactar diretamente nossas vidas.

Entre as tecnologias que vieram do espaço está um algoritmo adaptado por um brasileiro para detectar pedófilos na internet. Wanderley Abreu Júnior é carioca e CEO da startup Storm Security, empresa selecionada para prestar serviços para a Nasa, e usou um algoritmo da agência americana para desenvolver serviços aqui no Brasil — um para o Ministério Público e outro para empresas privadas de streaming, para detecção facial e captação de sinais piratas, respectivamente.

O trabalho da Storm é um de vários que serão apresentados no evento Fifty Years of Apollo 11, promovido pela New York Space Alliance com apoio da Nasa e do Google, no dia 19 de julho, em Nova Iorque. Segue abaixo uma versão editada da entrevista com Abreu Júnior.

Scientific American Brasil: Como começou sua relação com a Nasa?

Abreu Júnior: É uma história complicada. Eu trabalhei como estagiário lá, há muito tempo. Foi em 1997, com 18 anos, tinha acabado de entrar na PUC. Eu hackeei um site deles. História maluca. Aí me chamaram para fazer um estágio lá, e explicar melhor o que eu tinha feito e como tinha conseguido. Fui para o Centro de Voos Espaciais Goddard, no Laboratório de Física Terrestre, e fiquei lá quase dois meses. 

SA: E agora, como CEO da Storm, você faz parte da New York Space Alliance. O que é exatamente isso?

AJ: A New York Space Alliance é uma instituição sem fins lucrativos que reúne startups que trabalham para a Nasa no estado de Nova Iorque. É como se fosse uma associação de startups que têm alguma afinidade com algum laboratório da Nasa. No nosso caso específico, trabalhamos para três laboratórios diferentes: o Kennedy Space Center, o Ames e Goddard Space Flight Center.

SA: Que serviço vocês prestam, exatamente?

AJ: Temos um contrato com a Northrop Grumman Corporation para atuar no Telescópio James Webb. Na verdade, são diversas empresas diferentes envolvidas. Os próprios laboratórios se dividem e fazem partes desse projeto. Um faz a compressão, o outro trabalha na parte de ótica, e o terceiro faz a parte de transmissão. A Nasa é assim, em um projeto você tem mais de mil empresas trabalhando. O que nós fazemos, na verdade, é juntar tudo e fazer os testes de streaming de vídeo, porque o James Webb, além de fotos, vai enviar também vídeos curtos.  

SA: No evento de comemoração dos 50 anos da Apollo 11 da NYSA, vocês vão falar sobre uma tecnologia desenvolvida ao longo do programa espacial que é usada na vida cotidiana…

AJ: Na verdade, o evento vai contar com várias atividades. Vai ter uma roda de perguntas e respostas com astronautas, conversas sobre tecnologias espaciais, sobre vida no espaço, a história do programa espacial, da Gemini à Apollo, várias atividades diferentes. No nosso caso, vamos falar sobre nossa tecnologia. Isso porque a Nasa dá direito a transferência de tecnologia para a empresas parceiras, e para a utilização delas no cotidiano. São exemplos disso o teflon, a bicicleta ergométrica e o ecocardiograma, entre outros.

SA: E qual tecnologia vocês desenvolveram?

AJ: Aplicamos uma tecnologia da Nasa de cartografia estelar, ou seja, de trânsito de planetas, para aumentar o nível de reconhecimento facial em massa. E então utilizamos isso para a busca de pedófilos na internet. Pegávamos vídeos e fotos de pedofilia e tentávamos encontrar essas crianças ou os adultos que apareciam nos vídeos em redes sociais. Conseguimos identificar centenas de pessoas usando esse aplicativo, esse robô de buscas. 

Além disso, essa tecnologia hoje é aplicada para busca de sinais piratas de TV. Vários sites fazem transmissões de vídeo a partir de streamings piratas de empresas como Globosat Play, Globoplay. A tecnologia busca na internet esses sinais e os corta. Então, é mais um exemplo de tecnologia que foi desenvolvida a princípio para o programa espacial, mas que foram aplicadas de forma a ajudar o ser humano em seu cotidiano.

SA: Os mesmos algoritmos usados para identificar rostos também servem para procurar streaming pirata?

AJ: Na verdade, são vários algoritmos diferentes. O algoritmo original era para procurar planetas em trânsito diante de estrelas. O que fazemos é usar esse algoritmo para procurar padrões. Não interessa qual o padrão, desde que possamos transformar em matrizes. Matriz de áudio, de vídeo, de rosto, de qualquer coisa, e procuramos por padrões que se repitam. Por exemplo, você tem um número muito grande de estrelas, e dentro desse conjunto há discrepância de shift (desvio) de luz, para vermelho ou para azul. O algoritmo detecta esse shift. É a mesma coisa com rosto, com vídeo, com qualquer coisa que você consiga colocar dentro de uma matriz de dados. Esse algoritmo serve para isso: detecção de padrões em massa. Depois que ele detecta esse padrão, entram outros algoritmos, específicos para tratar áudio, vídeo, rosto, voz, etc. 

No caso do Ministério Público, o que fazíamos era buscar na deep web e dark web vídeos e fotos de crianças em posições pornográficas. Identificando esses vídeos, íamos para as etapas de facial recognition e facial detection. Ou seja, primeiro o computador precisa saber que é um vídeo de pedofilia. Depois de checar isso, o algoritmo detecta os rostos, e dos rostos ele extrai e começa a procurar por rostos similares em outros lugares, como redes sociais.

São três estágios diferentes, então. O algoritmo da Nasa entra no segundo estágio. Depois que é detectado que o vídeo é de fato um vídeo de pedofilia, o robô extrai os rostos e começa a procura. É um trabalho em massa: são milhares de rostos diferentes para procurar. O algoritmo então faz uma classificação por matrizes dos rostos, conforme geometria, forma, características, etc. Depois, ele faz combinações desse rosto com fotos de redes sociais e outros sites. E isso aumentou muito a capacidade de reconhecimento em massa. 

SA: Quando tudo isso desenvolvido?

AJ: Eu trabalhei no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro fazendo essa mesma coisa, fui chefe da Coordenadoria de Investigações Eletrônicas. O software já existia, desde 2004, mas ele tinha muitas limitações. Ele precisava de um ser humano para fazer o matching dos rostos com os rostos da rede, não trabalhava totalmente automático. O programa só detectava os vídeos. Com nossa entrada nos projetos da Nasa, em 2017, usamos esse algoritmo para torná-lo totalmente automático e para aumentar a qualidade do processo de busca.

Essa melhora não foi só por causa do algoritmo, mas também por causa dele. De 2015 para cá, há uma inflexão enorme na área de inteligência artificial. Redes neurais convulsionais, clouding, networking, uma capacidade computacional muito maior para usar esse tipo de algoritmo. E isso também faz com que esse algoritmo possa ser usado, porque antigamente não havia capacidade computacional para isso. O que nós fizemos foi anexar a possibilidade, o que triplicou nossa eficiência, e abriu margem para a gente utilizar isso em outros mercados também, como o mercado de vídeo. Nesse caso, é preciso buscar em muitos sites diferentes, e colocar pessoas para fazer isso é inviável. Uma coisa é você botar policiais para detectar pedofilia, é um nicho muito específico. Outra coisa é você procurar sinal pirata na internet. Então, isso tornou possível a gente explorar mercados e combater outros tipos de crime, de ordem intelectual, nessa mesma ferramenta. 

SA: Você já estava fora do Ministério Público em 2017, e mesmo assim criou esse software para eles?

AJ: Sim. Nós atualizamos o software sempre, e meu acordo é que continuem atualizando até ad eternum. E sem pagar. É um dever cívico, isso não tem preço. Eu jamais cobraria para fazer uma coisa dessa. É algo importante, sem preços. Já que a gente não gasta e podemos usar o software para utilizar em outras áreas, como a de propriedade intelectual, isso é uma contribuição que damos para a sociedade.

SA: Qual foi o impacto da aplicação do algoritmo?

AJ: Ao longo desses últimos dois anos, identificamos 1520 vídeos de pedofilia, isso só no Brasil, sendo que desses, mais de 20 rostos de pedófilos foram identificados. Antes, a taxa de detecção era muito baixa. Não tenho números, porque eram pessoas trabalhando, e pessoas não geram acurácia tão grande. Eu me lembro que na Operação Catedral, que fizemos no Ministério Público, foram 17 ou 18 pessoas identificadas, e isso foi na época a maior operação de pedofilia no estado do Rio de Janeiro. E mesmo assim demorou dois anos para ser concretizada, foi algo muito menor.

Bruno Carbinatto