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Terra vive emergência climática, declara grupo internacional de cientistas

Com mais de 11 mil signatários, artigo aponta seis áreas que necessitam de transformações urgentes para mitigar “sofrimento humano”

Nasa

Uma coalizão internacional de cientistas afirma que, sem mudanças profundas nas atividades humanas que contribuem para a emissão de gases de efeito estufa e em outros fatores relacionados às mudanças climáticas, o “sofrimento humano” será inevitável e incalculável.

“Apesar de 40 anos de grandes negociações globais, continuamos a conduzir nossa vida do mesmo jeito, e ainda não conseguimos lidar com essa crise”, diz Ripple, professor de ecologia na Universidade Estadual de Oregon e um dos líderes do estudo. “As mudanças climáticas chegaram e estão se acelerando mais rapidamente do que muitos cientistas esperavam.” 

Em um artigo publicado hoje na revista BioScience, mais de 11.000 cientistas signatários de 153 países declararam uma emergência climática, apresentando gráficos que mostram as tendências e métricas para se medir progresso, além de indicar um conjunto de possíveis ações eficazes.

Os cientistas apontam para seis áreas nas quais a humanidade deve tomar medidas imediatas a fim de diminuir os efeitos de um planeta em aquecimento:

1) Energia: implementar práticas de conservação massivas; substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis de baixo carbono; não explorar os estoques restantes de combustíveis fósseis; eliminar subsídios a empresas de combustíveis fósseis; e impor taxas de carbono altas o suficiente para restringir o uso de combustíveis fósseis.

2) Poluentes de vida curta: reduzir rapidamente as emissões de metano, fuligem, hidrofluorcarbonetos e outros poluentes climáticos de vida curta; isso pode reduzir a tendência de aquecimento de curto prazo em mais de 50% nas próximas décadas.

3) Natureza: restaurar e proteger ecossistemas como florestas, pradarias, pântanos e manguezais e permitir que uma parcela maior desses ecossistemas atinja seu potencial ecológico de sequestro de dióxido de carbono atmosférico, um importante gás de efeito estufa.

4) Alimentação: aumentar o consumo de plantas e diminuir o de produtos de origem animal. Mudanças na dieta reduziriam significativamente as emissões de metano e de outros gases de efeito estufa, além de liberar terras agrícolas para o cultivo de alimentos para humanos, em vez de alimentos para animais. Reduzir o desperdício de alimentos também é fundamental — os cientistas dizem que pelo menos um terço de todos os alimentos produzidos acaba no lixo.

5) Economia: converter a economia em uma economia livre de carbono para lidar com a dependência humana da biosfera e desvincular objetivos do crescimento do produto interno bruto e da busca por riqueza. Além disso, limitar a exploração de ecossistemas para manter a sustentabilidade da biosfera a longo prazo.

6) População: estabilizar a população humana global, que atualmente está aumentando em mais de 200.000 pessoas por dia, usando abordagens que garantam justiça social e econômica.

“Mitigar e adaptar-se às mudanças climáticas, respeitando a diversidade de seres humanos, implica em grandes transformações na forma que nossa sociedade global funciona e interage com os ecossistemas naturais”, afirma o artigo. “Somos encorajados por uma recente onda de preocupação. Os órgãos governamentais estão dando declarações de emergência climática. Crianças em idade escolar estão em greve. Processos de ecocídio estão em andamento nos tribunais. Movimentos cidadãos estão exigindo mudanças, e muitos países, estados, cidades e empresas estão respondendo. Como uma Aliança Global de Cientistas, estamos prontos para ajudar os formuladores de políticas para alcançar uma transição justa para um futuro sustentável e equitativo “.

Os gráficos no artigo ilustram vários indicadores e fatores-chave da mudança climática nos últimos 40 anos, desde que cientistas de 50 países se reuniram na Primeira Conferência Mundial do Clima, em Genebra, em 1979.

Nas últimas décadas, vários outros grupos globais concordaram que ações urgentes são essenciais, mas as emissões de gases de efeito estufa ainda estão aumentando rapidamente. Outros sinais ameaçadores das atividades humanas incluem aumentos sustentados na produção de carne per capita, perda global de cobertura de árvores e alto número de passageiros de companhias aéreas.

Porém, há também alguns sinais encorajadores — incluindo reduções nas taxas globais de nascimentos e uma menor perda de florestas, como na Amazônia brasileira, além de aumentos no uso de energia eólica e solar — mas mesmo essas medidas não são isentas de preocupação. O declínio nas taxas de natalidade diminuiu nos últimos 20 anos, por exemplo, e o ritmo da perda da floresta amazônica parece estar começando a aumentar novamente.

“A temperatura global da superfície, o calor do oceano, o clima extremo e seus custos, o nível do mar, a acidez do oceano e a área de queimadas nos Estados Unidos — todos estão aumentando”, diz Ripple. “Globalmente, o gelo está desaparecendo rapidamente, como demonstrado pelas reduções no gelo de verão do Ártico, nas camadas de gelo da Groenlândia e na Antártica e na espessura das geleiras. Todas essas mudanças rápidas destacam a urgente necessidade de ação”.

Universidade Estadual de Oregon