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Uso de medicamentos a base de maconha é eficaz para tratar vício na própria maconha

Estudo pioneiro mostra que novo tratamento funciona como uma “reposição de nicotina” e pode aumentar bem-estar

Rick Proctor/Unsplash

Um novo estudo australiano demonstrou que medicações feitas a partir da maconha podem ajudar a combater a dependência da própria maconha, uma das drogas mais usadas no mundo.

Um estudo clínico da Universidade de Sydney, na Austrália, e da NSW Health fornece a primeira evidência forte de que a chamada medicação agonista feita de cannabis — que tem como alvo certos receptores cerebrais — poderia reduzir as taxas de recaída. O artigo foi publicado na revista JAMA Internal Medicine, da Associação Médica Americana.

Nick Lintzeris, autor principal do estudo e professor da Faculdade de Medicina e Saúde da Universidade de Sydney, diz que o estudo deve dar esperança a pessoas dependentes da maconha, que é uma das principais causas que levam ao tratamento para a dependência drogas na Austrália.

“Nunca antes tivemos evidência de que a medicação à base de maconha poderia ser eficaz no tratamento da dependência de maconha — este é o primeiro grande estudo a mostrar que esta é uma abordagem segura e eficaz”, conta Lintzeris.

“Os princípios são muito semelhantes à reposição de nicotina; fornecemos aos pacientes um medicamento mais seguro do que a droga que já estão usando, e combinamos isso com apoio médico e aconselhamento para ajudar as pessoas a lidar com o consumo ilícito da maconha.”

O concentrado de maconha, que possui proporções iguais de canabidiol (CBD) e do psicoativo tetrahidrocanabinol (THC), é borrifado em forma de spray debaixo da língua, e evita impactos na saúde associados ao consumo direto de maconha, como problemas respiratórios.

O nabiximols — medicamento desenvolvido a partir da maconha — tem sido usado principalmente para tratar de sintomas relacionados à esclerose múltipla, e é autorizado na Austrália. Também existem produtos médicos alternativos de maconha, mas estes só estão disponíveis através de esquemas de acesso especiais e, ao contrário da medicação estudada, requerem também a aprovação de um órgão regulador.

O extenso estudo clínico ambulatorial durou 12 semanas e contou com 128 participantes, que tomaram a medicação derivada da maconha. A pesquisa é sequência de um estudo anterior da mesma equipe, que havia mostrado que esses medicamentos reduzem os sintomas de abstinência em um programa de tratamento hospitalar de curta duração. “O mais recente estudo publicado hoje é ainda mais importante na medida em que mostra que o nabiximols pode ser eficazes em ajudar pacientes a alcançar mudanças de longo prazo sobre o uso de maconha”, explica Lintzeris.

O professor Iain McGregor, coautor do artigo e diretor acadêmico da Iniciativa Lambert para Maconha Terapêutica, observa que  “em todo o mundo, estamos vendo pacientes de maconha medicinal abandonando a maneira tradicional de se usar maconha, que é fumando. Este novo estudo complementa esta tendência e mostra que um spray oral pode ser um substituto eficaz para a maconha fumada em usuários recreativos que procuram tratamento para o consumo”.

Lintzeris explica que um elemento importante deste estudo foi que foram recrutados apenas usuários de maconha que haviam tentado, sem sucesso, restringir o uso.

“Nosso estudo é um passo importante para resolver a falta de tratamentos eficazes —  atualmente, quatro em cada cinco pacientes recaem para uso regular dentro de seis meses de intervenções médicas ou psicológicas”.

O estudo

Durante o ensaio clínico, os participantes tiveram uma dose média de cerca de 18 pulverizações por spray por dia, com cada pulverização de 0,1 mL compreendendo 2,7 mg de THC e 2,5 mg de CBD. Os resultados mostraram que participantes tratados com medicamentos à base de maconha usaram bem menos maconha ilícita do que os pacientes aleatoriamente tratados com medicação placebo.

O medicamento também foi combinado com a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e outros apoios terapêuticos, para uma abordagem holística. Este primeiro grande estudo clínico observou a supressão dos sintomas da abstinência, com melhorias no bem-estar físico e psicológico.

Universidade de Sydney