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A geoengenharia e o caso moral da conservação

Para que devemos preservar a Natureza? Somos capazes de viver apenas por nós mesmos?

A mudança climática ainda é uma conclusão precipitada. A quantidade de dióxido de carbono na atmosfera em dois séculos de queima de combustível fóssil (e, aparentemente, com décadas mais por vir, dado o ritmo glacial dos esforços para reduzir as emissões) é o suficiente para aquecer substancialmente as temperaturas médias globais. E isso deixa a geoengenharia – a manipulação deliberada e em larga escala de processos planetários, nas palavras da Royal Society – como o principal candidato a uma tecnocorreção do problema do aquecimento global, uma correção que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da ONU, vai começar a explorar, em Lima, Peru, esta semana.

“O Ártico está derretendo muito mais rápido do que se espera”, observou o físico David Keith, da Universidade de Calgary, durante uma palestra no Perimeter Institute, em Waterloo, Ontário, durante a Cúpula Equinox no início de junho, explicando por que a Natureza deve ser preservada. “Minha geração fracassou totalmente para conter as emissões de gases de efeito estufa, a próxima geração terá de fazer isso,” comenta.

Keith, um dos principais defensores de pesquisas de geoengenharia, e é conselheiro sobre clima e energia de um dos mais importantes filantropos (e homens mais ricos) do mundo, Bill Gates. Como fabricante de máquinas, incluindo o primeiro interferômetro em escala atômica, Keith não acha que estamos ficando sem tecnocorreções nem mesmo começando a nos aproximar de qualquer limite de recursos, de progresso tecnológico ou a capacidade da Terra para sustentar uma expansão populacional humana. “É verdade que vamos ficar sem o petróleo fácil no Oriente Médio, com profundos impactos geopolíticos, mas isso é muito diferente de ficar sem petróleo”, disse ele. “Temos uma quantidade absurda de hidrocarbonetos no mundo e uma crescente capacidade tecnológica para tirá-los a preços que podemos pagar.”

Em outras palavras, o pico de produção do petróleo (ou carvão ou gás natural) [em inglês, a expressão peak oil, ou o momento em que a produção de petróleo atinge um máximo, depois do qual haverá um inexorável declínio] não vai nos salvar da mudança climática. O que pode nos salvar, segundo Keith, são as regulamentações governamentais, que têm permitido o progresso na reparação de problemas ambientais como poluição do ar ou eliminar metais pesados tóxicos do solo.

A posição popular, tomadas por grupos ambientalistas e grandes empresas, é que a natureza oferece valor econômico. Os assim chamados serviços de ecossistema – como água limpa ou polinização de culturas – contribuem com bilhões para a economia global. Mas se essa é a única razão para salvar o mundo natural? Então, uma vez que alguém construa uma máquina que possa, por exemplo, oferecer os mesmos benefícios atmosféricos que a floresta Amazônica, já não haverá qualquer razão convincente para salvar os pulmões “da Terra”, como a Amazônia é chamada.

Há uma questão moral a ser tratada para salvar a natureza, particularmente na medida em que serve, em sua concepção, como uma âncora “psicológica e moral” para a humanidade, graças à biofilia, identificada pelo biólogo de Harvard, E. O. Wilson. “Se pudermos proteger essa âncora para uma pequena porcentagem do produto interno bruto, seríamos loucos em não passar para os nossos netos a opção de ter o mundo natural”, disse ele.