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Astrônomos confirmam planeta semelhante à Terra na estrela mais próxima de nós

Espectrômetro encontrou o planeta com mais precisão e possíveis dados sobre um outro planeta

Impressão artística da superfície do Proxima b Créditos: © ESO/M. Kornmesser

A existência de um planeta do tamanho da Terra ao redor da estrela mais próxima do Sistema Solar, Proxima Centauri, foi confirmada por uma equipe internacional de cientistas incluindo pesquisadores da Universidade de Geneva (UNIGE). Os resultados, publicados em  Astronomy & Astrophysics, revelam que o planeta em questão, Proxima b, possui a massa equivalente a 1,17 massa da Terra e está localizado na zona habitável de sua estrela, cuja duração da órbita dura 11,2 dias. Essa descoberta foi possível graças a medições da velocidade radial de precisão, antes sem precedentes, utilizando o ESPRESSO, o espectrômetro produzido na Suíça o mais preciso em operação atualmente que está instalado no Very Large Telescope (VLT) no Chile. Proxima b foi detectado primeiro quatro anos atrás por um espectrômetro mais antigo, HARPS desenvolvido também pela equipe em Geneva que mediu uma pequena perturbação na velocidade da estrela, sugerindo a presença de um companheiro. 

O espectrômetro ESPRESSO realizou medições da velocidade radial na estrela Proxima Centauri, que está a apenas 4,2 anos luz do Sol, com uma precisão de 30 centímetros por segundo (cm/s) ou cerca de três vezes mais preciso do que os resultados obtidos com HARPS, que é o mesmo tipo de instrumento, mas da geração anterior.

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“Nós já estávamos contentes com a performance de HARPS, que foi responsável pela descoberta de centenas de exoplanetas nos últimos 17 anos”, diz Francesco Pepe, professor no Departamento de Astronomia da Faculdade de Ciência da UNIGE e o homem responsável pelo ESPRESSO. “Nós estamos muito felizes que o ESPRESSO consiga realizar medições ainda melhores, e é gratificante, uma recompensa pelo trabalho em equipe dos últimos 10 anos”. 

Alejandro Suarez Mascareño, o autor principal do artigo, acrescenta: “Confirmar a existência da Próxima b foi uma tarefa importante, além de ser um dos planetas mais interessantes conhecidos na nossa vizinhança solar”. 

As medições realizadas pelo ESPRESSO esclareceram que a massa mínima da Proxima b é 1,17 a massa da terra (a estimativa anterior era de 1,3) e que orbita sua estrela em apenas 11,2 dias. 

“ESPRESSO tornou possível medir a massa do planeta com uma precisão de mais de um décimo da massa da Terra”, diz Michel Mayor, vencendor do Prêmio Nobel de Física em 2019, professor honorário da Faculdade de Ciências e o “arquiteto” dos instrumentos do ESPRESSO. “É completamente sem precedentes”. 

E a vida em tudo isso?

Mesmo que o Proxima b esteja cerca de 20 vezes mais próxima de sua estrela que a Terra é do Sol, ele recebe uma quantidade comparável de energia, então sua temperatura na superfície poderia ter (se tiver em qualquer forma) água líquida e, portanto, vida. 

Dito isso, mesmo que Proxima b seja um candidato ideal para pesquisa biológica, ainda há um longo caminho a se trilhar antes de conseguirmos sugerir que pode se desenvolver vida em sua superfície.  Na realidade, a estrela Proxima é uma anã vermelha ativa que bombardeia seu planeta com raios X, recebendo cerca de 400 vezes mais que a Terra.

“Existe uma atmosfera que protege o planeta desses raios mortais?” pergunta Christophe Lovis, pesquisador do Departamento de Astronomia na UNIGE e responsável pela performance científica do ESPRESSO e pelo processamento de dados. “E se a atmosfera existe, ela contém os elementos químicos que promovem o desenvolvimento de vida (oxigênio, por exemplo)? Por quanto tempo essas condições favoráveis existiram? Nós vamos responder todas essas perguntas, especialmente com a ajuda de futuros instrumentos como o espectrômetro RISTRETTO, que construiremos especialmente para determinar a luz emitida pela Proxima b, e HIRES, que será instalado no futuro telescópio gigante ELT 39 m que o European Southern Observatory (ESO) está construindo no Chile”.

Surpresa: existe um segundo planeta?

No meio tempo, a precisão das medidas realizadas pelo ESPRESSO poderiam resultar em outra surpresa. A equipe encontrou evidências de um segundo sinal nos dados, sem conseguir estabelecer a causa definitiva por trás. “Se o sinal for de um planeta, esse outro planeta em potencial acompanhando o Proxima b teria uma massa menor do que um terço da massa da Terra. Seria então o menor planeta já medido usando o método da velocidade radial”, acrescenta o Professor Pepe.

Deve notar-se que o ESPRESSO, que começou sua operação em 2017, está na sua infância, e esses resultados iniciais já estão abrindo oportunidades antes não sonhadas. A viagem foi realizada num ritmo acelerado desde que o primeiro planeta além do sistema solar foi descoberto por Michel Mayor e Didier Queloz, ambos do Departamento de Astronomia da UNIGE. Em 1995, o planeta gigante gasoso 51 Peg b foi detectado utilizando o espectrômetro ELOIDE com uma precisão de 10 metros por segundo (m/s). Hoje ESPRESSO, com seus 30 cm/s (e em breve 10 após os seus ajustes mais recentes) talvez torne possível explorar mundos que nos remetem a Terra.  

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Publicado em

29/05/2020