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Devido à COVID-19, podemos estar na rota para um tsunami de demência

A pandemia de COVID-19 pode afetar o envelhecimento do cérebro direta e indiretamente

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Já sabemos que a COVID-19 afeta em maior proporção os adultos de 65 anos ou mais, que formam o grupo com maior risco de  resultados mais graves. Os adultos mais velhos são quase dois terços das admissões em hospitais nos Estados Unidos causadas pelo coronavírus. Além disso, as medidas implementadas para desacelerar o contágio do vírus, como o distanciamento social, as regras de quarentena e as políticas para evitar visitantes em hospitais impactam desproporcionalmente as pessoas mais velhas, muitas das quais dependem de outros para seu bem-estar.

Mesmo sabendo que os procedimentos realizados na UTI e o distanciamento social são essenciais,  eles podem vir a causar consequências de longo prazo para nossa população mais idosa. Em especial,  uma onda crescente de demência, depois que a atual pandemia de COVID-19 terminar.  A COVID-19 tem uma importância direta para a saúde cognitiva do cérebro idoso sob vários aspectos. Isso inclui os efeitos da COVID-19, os tratamentos e a sociedade em que vivemos. Felizmente, existem estratégias promissoras que podem ajudar a mitigar esse risco proeminente em adultos mais velhos.


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Nós precisamos de mais pesquisas sobre como a COVID-19 pode afetar o cérebro. Os primeiros resultados mostraram que a COVID-19 pode causar efeitos cerebrais como a encefalopatia, como ocorreu com a síndrome respiratória aguda grave de 2002, que ocasionava lesões no tecido cerebral. Além disso, a COVID-19 causa insuficiência respiratória, que está ligada ao risco de demência devido a falta de oxigenação do cérebro. Por isso, agências financiadoras já começaram a priorizar a pesquisa sobre os efeitos cerebrais da COVID-19, incluindo o Instituto Nacional de Saúde e a Associação Americana do Coração. 

Equipes de cuidados de saúde devem considerar intervenções que aliviam as consequências do tratamento intensivo nos cérebros dos idosos. O uso de ventiladores e sedativos, vitais para a COVID-19, pode causar mudanças cognitivas aflitivas como o delírio, que é um estado de confusão grave e súbito. O delírio afeta metade dos adultos mais velhos hospitalizados, e aumenta o risco de demência a longo prazo. Admissões urgentes em hospitais  estiveram ligadas ao aumento do risco de demência, especialmente daqueles em estado crítico. Para muitos adultos mais velhos com capacidade de reserva reduzida, pode ser muito difícil que retornem, saindo de  uma doença grave e do tratamento intensivo, ao nível anterior de função cognitiva. 

Entretanto, já existem protocolos aprovados para que os delírios nas UTIs não sobrecarreguem as equipes de saúde que já estão ocupadas. Interromper as medicações diárias de sedativos, ou guiar os pacientes quanto ao ambiente ao seu redor durante os cuidados de saúde, podem ajudar a prevenir os delírios. Danos de longo prazo na memória e no pensamento são observados muito tempo depois da alta, como resultado de estresse pós-traumático. O apoio psicológico, na forma de serviços de saúde mental, e atividades para exercitar a mente após a hospitalização devem ser incorporadas ao planejamento após a alta. 

Precisamos fazer um esforço coletivo para aliviar o impacto cognitivo do isolamento social. Mesmo para adultos mais velhos que estão evitando a COVID-19, os esforços de distanciamento social podem, infelizmente, aumentar o risco de demência. Distanciamento social, políticas de quarentena e a limitação das visitas para cuidados em casa provavelmente vão resultar em um isolamento social acentuado para os adultos mais vulneráveis, o que pode agravar os problemas de saúde mental. Isolamento social e a solidão estão ligadas a maiores probabilidades de perdas de memória em idade avançada, assim como estresse e depressão. 

 As políticas de isolamento social e o fechamento de locais públicos inibem a prática de atividades físicas regularmente, e é um dos fatores  mais reconhecidos para o envelhecimento saudável do cérebro. Programas de estudantes voluntários podem ser optimizados para ensinar adultos mais velhos a utilizar celulares ou câmeras em seus computadores para se conectarem com seus amados virtualmente. Casas de aposentados e asilos podem promover atividades mais seguras, como caminhadas ao ar livre, para encorajar a movimentação regular e providenciar a rotina, muitas vezes necessária. Finalmente, organizações podem ajudar a providenciar apoio social, acompanhar  os idosos, e garantir que suas necessidades essenciais, como compras de mercado, estão sendo garantidas para aqueles que moram sozinhos. 

Como pesquisadores que estudam o impacto de comportamentos e eventos de vida sobre o risco para a demência, nós observamos uma outra crise de saúde iminente para adultos mais velhos, resultado da pandemia de coronavírus. No nosso trabalho, observamos a importância de promover atividades no dia a dia para optimizar a saúde do cérebro na população idosa. Nossas comunidades e nossa infraestrutura de saúde já estão enfrentando uma onda de demência sobre a geração passada que está envelhecendo; a pandemia de COVID-19 apenas agravará essa situação. 

Mais apoio e mais financiamento governamental serão necessários agora, mais do que antes, para enfrentar essa crescente crise de demência. Órgãos  de pesquisa, serviços de  saúde e de saúde pública devem trabalhar cooperativamente para desenvolver intervenções e sistemas para dar suporte a idosos com dificuldades cognitivas e suas famílias. Tal colaboração é nossa melhor estratégia para ajudar a nossa população mais velha contra uma onda crescente de demência após o achatamento da curva da pandemia de COVID-19. 

Shannon Halloway, Bryan D. James

Publicado em 21/05/2020