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Ensaios de vacinas para o coronavírus mostram seus primeiros resultados, mas sua efetividade permanece incerta

Possíveis sinais de sucesso em pequenos estudos clínicos e em animais não significam que candidatas a a vacina possam realmente proteger o organismo humano

À medida que  avança o desenvolvimento das vacinas para o coronavírus, cientistas estão obtendo agora os primeiros dados que apontam para a qualidade do seu desempenho. A imagem, até agora, é nebulosa.

Em 18 de maio, a empresa de biotecnologia Moderna revelou os primeiros dados de um ensaio em humanos: sua vacina contra a COVID-19 acionou a resposta imunológica nas pessoas, e conseguiu proteger camundongos de ter seus  pulmões infectados pelo  coronavírus SARS-CoV-2. Os resultados — que a empresa, localizada em Cambridge, Massachusetts, anunciou em um comunicado para a imprensa — foram interpretados positivamente, o que elevou os valores das ações da empresa. Mas alguns cientistas dizem que, como os dados ainda não foram publicados, faltam os detalhes necessários para avaliar adequadamente essa afirmação.

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Testes com outras vacinas produzidas à jato mostraram que elas conseguiram prevenir as infecções nos pulmões de macacos que foram expostos ao SARS-CoV-2 , mas não foram eficazes em defender outras partes do corpo. Uma delas — uma vacina sendo desenvolvida na Universidade de Oxford, Reino Unido, que também está em ensaios clínicos — protegeu seis macacos da pneumonia, mas os narizes dos animais apresentavam  a mesma quantidade de vírus que os macacos não vacinados, relataram os pesquisadores semana passada em uma pré-publicação no bioRxiv. Um grupo chinês reportou ressalvas similares sobre seu teste inicial em animais neste mês.

Apesar das incertezas, todas as três equipes estão correndo com os ensaios clínicos. Esses estudos iniciais servem para testar a segurança, mas os ensaios clínicos maiores, pensados para determinar se as vacinas podem realmente proteger os humanos da COVID-19, podem ter relatórios nos próximos meses. 

Ainda assim, os dados iniciais podem oferecer pistas sobre como a vacina do coronavírus pode gerar uma resposta imunológica forte. Cientistas dizem que os dados de animais serão cruciais para entender como a vacina contra o coronavírus funciona, para que os candidatos mais promissores possam ser identificados rapidamente e então refinados. “Nós podemos ter vacinas nas clínicas que sejam eficazes em pessoas  em 12 a 18 meses”, diz Dave O’Connor, um virologista na Universidade Wisconsin-Madison. “Mas nós vamos precisar melhorá-las para desenvolver a segunda e terceira geração de vacinas”.

Resposta imunológica

A vacina da Moderna, que está sendo desenvolvida junto com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID) em Bethesda, Meryland, começou a realizar testes de  segurança  em humanos em março. A vacina consiste nas instruções de um RNA mensageiro para desenvolver a proteína spike  do coronavírus; isso que faz com que as células humanas expulsem a proteína invasora, alertando o sistema imunológico. Apesar dessas vacinas baseadas em RNA serem fáceis de se desenvolver, nenhuma jamais foi licenciada em qualquer lugar do mundo. 

Em seu comunicado de imprensa, a empresa reportou que 45 participantes do estudo que receberam uma ou duas doses da vacina desenvolveram uma resposta imunológica forte contra o vírus. Pesquisadores mediram anticorpos de reconhecimento ao vírus em 25 participantes, e detectaram níveis similares  àqueles encontrados no sangue de pessoas que se recuperaram da COVID-19, ou mais altos.

Tal Zaks, oficial chefe de medicina na Moderna, disse em uma apresentação para investidores que esses níveis de anticorpos funcionam bem para a prevenção de infecção da vacina. “Se chegarmos aos níveis das pessoas que tiveram a doença, isso deve bastar”, disse Zaks. 

Mas não está claro se as respostas são suficientes para proteger as pessoas das infecções, porque a Moderna não compartilhou os dados, diz Peter Hotez, um cientista de vacinas na Faculdade de Medicina de Baylor em Houston, Texas. “Eu não estou convencido de que é realmente um resultado positivo”, diz Hotez. Ele aponta uma pré-publicação em 15 de maio no bioRxiv que descobriu que a maioria das pessoas que se recuperaram da COVID-19 sem hospitalização não produziram níveis altos de “anticorpos neutralizadores”, que bloqueiam o vírus de infectar as células. A Moderna mediu esses anticorpos potentes em oito participantes do ensaios e encontrou níveis similares àqueles em pacientes recuperados. 

 Hotez também tem dúvidas sobre os primeiros resultados da equipe de Oxford, que descobriu que macacos produziram níveis modestos de anticorpos neutralizantes após receber uma dose da vacina (a mesma quantidade que está sendo testada em ensaios humanos). “Parece que esses números precisam ser consideravelmente maiores para conseguir gerar proteção”, diz Hotez. A vacina é feita de um vírus de chimpanzé que foi alterado geneticamente para produzir uma proteína do coronavírus. 

Hotez diz que a vacina sendo desenvolvida pela Sinovac Biotech em Pequina parece ter apresentado uma resposta com anticorpos mais promissora em macacos que receberam três doses, como relato em um artigo de 5 de maio na revista Science. Essa vacina é composta por partículas de SARS-CoV-2 inativadas quimicamente.

Ninguém sabe ao certo a natureza precisa da resposta imunológica que protege as pessoas da COVID-19, e os níveis de anticorpos neutralizantes produzidos por macacos no estudo de Oxford podem ser suficientes para proteger as pessoas da infecção, diz Michael Diamond, um imunologista viral na Universidade de Washington em St. Louis, Missouri, que é membro do conselho de consulta científicas da Moderna. Caso contrário, uma segunda injeção provavelmente aumentaria os níveis. “O que não sabemos é quanto tempo irá durar”, ele acrescenta,

Estudos em animais

Mais questões ainda pairam sobre os experimentos que mostram que as vacinas podem proteger animais das infecções. Moderna disse que sua vacina impediu a replicação nos pulmões de ratos. Os roedores foram infectados com uma versão do vírus que foi geneticamente modificada para que atacasse as células dos ratos, que geralmente não são suscetíveis ao SARS-CoV-2, de acordo com a apresentação de Zaks.  Mas a mutação afeta a proteína que a maioria das vacinas, incluindo a da Moderna, utilizam para estimular o sistema imunológico, e isso poderia alterar a resposta do animal para a infecção.

Foi dado aos macacos de Oxford uma dose extremamente alta do vírus após receberam a vacina, diz Sarah Gilbert, uma vacinologista de Oxfordo que co-liderou o estudo com Vincent Munster, um virologista nos laboratório de NIAID em Hamilton, Montana. Isso poderia explicar o porquê de os animais infectados possuírem tanto material genético do SARS-CoV-2 em seus narizes quanto os animais de controle, mesmo que os macacos vacinados não tenham desenvolvido nenhum sinal de pneumonia. Administrar doses altas garante que os animais serão infectados com o vírus, mas pode não replicar as infecções naturais. O estudo de Oxford não mediu o quanto o vírus ainda era infeccioso, diz Diamond, e o material genético poderia representar partículas do vírus inativadas pela resposta imunológica do macaco, ou as viroses administradas pelos pesquisadores, ao invés de uma infecção atuante. 

Ainda assim, o resultado é uma “preocupação” que levanta a possibilidade de pessoas vacinas ainda espalharem o vírus, diz Douglas Reed, um aerobiólogo no Centro de Pesquisa em Vacina da Universidade de Pittsburgh na Pennsylvania. “idealmente, você quer que a vacina te proteja contra a doença e contra a transmissão, para que possamos quebrar a corrente”, ele diz. 

Uma maneira para saber se as vacinas podem prevenir a transmissão seria estudá-las em animais que são naturalmente suscetíveis aos vírus e parecem capazes de espalhá-los, como furões e hamsters, diz Reed. Ele e outros pesquisadores também pontuam que macacos apresentam apenas sintomas leves da infecção por coronavírus, e se perguntam se as vacinas devem ser testadas em animais que desenvolvem a doença mais gravemente. 

Sinais de segurança

Mesmo que a avaliação da eficácia potencial da vacina seja difícil, os dados recentes são mais claros quanto à segurança, dizem os pesquisadores. A vacina da Moderna causou poucos problemas graves de saúde e nenhum duradouro nos participantes do estudo. Os macacos vacinados em Oxford e Sinovac não desenvolveram uma doença grave após a infecção — um medo chave, porque uma vacina inativada para o coronavírus parente que causa a SARS (síndrome respiratória aguda grave) apresentou sinais disso em macacos. 

Stanley Perlman, um virologista especializado em coronavírus na Universidade de Iowa na Cidade de Iowa, disse que os estudos em animais conduzidos até agora não podem dizer muito para os desenvolvedores de vacina. “As pessoas estão fazendo o melhor que podem”, ele diz. Nenhum dos dados que viu deveria dissuadir os desenvolvedores de seguirem com os ensaios clínicos em humanos para determinar se a vacina funciona, ele diz. 

Moderna logo começará um ensaio de fase II envolvendo 600 participantes. Eles esperam começar um ensaio de eficácia de fase III em julho, para testar se a vacina pode prevenir a doença em grupos de alto-risco, como funcionários de saúde e pessoas com pré-existentes problemas de saúde. Zaks disse que os próximos estudos em animais, incluindo alguns em macacos, estavam a caminho, e não estava claro qual animais iria prever melhor e como a vacina funciona. 

A equipe de Oxford já envolveu mais de 1000 pessoas em um ensaio no Reino Unido. Alguns voluntários receberam um placebo, para que o ensaio permitisse aos pesquisadores a determinarem se a vacina funciona em humanos nos próximos meses. Os problemas de falta de segurança nos macacos do estudo estavam resolvidos, diz Gilbert.

“Nós não precisamos de mais nenhum dado de ensaios de animais para continuar”, ela diz. “Se nós conseguirmos eficácia em humanos, nós conseguimos eficácia em humanos, e é isso que importa”.

Esse artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado primeiramente em 19 de maio de 2020

Ewen Callaway, Nature

Publicado em 22/05/2020