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Eventos “supercontagiosos” respondem pela maioria das infecções de COVID-19

Estima-se que, em condições específicas, apenas 10% dos indivíduos infectados possam ser responsáveis por 80% dos casos de transmissão do vírus

O SarsCov-2. Foto de microscopia do NIAID

No fim de fevereiro, cerca de 175 executivos de todo o mundo compareceram a conferência da liderança da empresa de biotecnologia Biogen, em Boston. Durante dois dias, eles deram as mãos, conversaram entre si e dividiram refeições. Entre eles estava também  o novo coronavírus. Diversas pessoas no evento estavam infectadas sem saberem com o microrganismo que causa a COVID-19, e o vírus rapidamente se espalhou para outras pessoas, que o levaram consigo para suas casas. No mínimo 99 pessoas ficaram  doentes apenas em Massachusetts. 

Na mesma época,  o coronavírus estava se espalhando entre mais de 100 pessoas que compareceram a um funeral em Albany, Georgia, dando início a um surto que em breve fez daquele condado um dos lugares com maior incidência de casos  de COVID-19 em todos os EUA. No mês seguinte, um único indivíduo com a doença infectou 52 pessoas durante um ensaio de coral de duas horas e meia no Estado de Washington. Duas pessoas faleceram. Em Arkansas, um pastor infectado e sua esposa transmitiram o vírus para mais de 30 pessoas que compareceram a eventos da igreja por alguns dias, levando a pelo menos três mortes. E esses novos casos se espalharam para mais 26 pessoas, dentre as quais pelo menos uma morreu. 

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À medida que os cientistas  aprendem mais sobre a COVID-19, fica  claro que os chamados incidentes “supercontagiosos” — durante os quais uma pessoa infecta um número muito grande de outros indivíduos — teve um papel gigante na transmissão do vírus que causa a doença. A conferência de Boston e o funeral na Georgia estavam entre diversos eventos de “supercontágio” que tiveram um “um papel notável no início do contágio dos Estados Unidos de COVID-19”, de acordo com um relatório de Anne Schuchat, diretora-assistente  do Centro de Controle e Prevenção de Doenças. Na realidade, pesquisas com  casos confirmados, assim como as modelagens  da pandemia, indicam que entre 10% e 20%  das pessoas infectadas são responsáveis por 80% do contágio do coronavírus. 

Esses números significam que prevenir eventos de “supercontágio” poderia ser um bom caminho para parar a COVID-19, diz Samuel Scarpino, um estudioso  de redes que pesquisa  doenças infecciosas na Universidade Northeastern. Cientistas identificaram os fatores que catalisam tais eventos, tais como  grandes aglomerações, contato próximo entre pessoas e espaços confinados com ventilação ruim. As evidências atuais sugerem que, na maior parte das vezes,  são circunstâncias assim que criam as condições para ventos de contágio em grande escala, e não alguma coisa ligada à biologia de indivíduos específicos. 

Ao descrever o modo como o  o vírus SARS-CoV-2 se propaga, os epidemiologistas não utilizam apenas um número médio de outras pessoas que um indivíduo infecta, mas também aplicam outros valores chaves chamados de fatores de dispersão, ou “k”. Esse número descreve o quanto uma doença se aglomera. Um k pequeno geralmente significa que um número relativamente pequeno de casos responde pelas transmissões, enquanto que um k grande indica que as transmissões ocorrem de forma mais igualitária.  Em Hong Kong, pesquisadores calcularam que, em mais de 1000 casos de COVID-19 que examinaram, o valor do k era por volta de 0,45. Esse valor era maior que o da SARS ou da MERS — dois surtos virais anteriores que estavam relacionados a eventos de supercontágio — mas muito menor do que a da pandemia de gripe em 1918. Em outras palavras, a transmissão do SARS-CoV-2 não é tão dependente de supercontágio como a da SARS e a da MERS foram, mas muito mais dependente do que a influenza, diz Scarpino. 

O mecanismo primordial de difusão do novo coronavírus é pelas gotículas respiratórias produzidas por um indivíduo infectado durante tosses, espirros, conversas ou respiração. A  pessoa que está perto é infectada ao inalar essas gotículas em seus pulmões, ou colocando-as no nariz ou na boca. Se as pessoas ficassem doentes logo ao serem  infectadas, elas poderiam ficar em casa de cama e assim reduzir as oportunidades de transmissão do vírus. Ao invés disso, os indivíduos com COVID-19 são contagiosos antes de terem sintomas, diz Lauren Ancel Meyers, diretora executiva do Consórcio de Modelagem da COVID-19 da Universidade do Texas em Austin. O CDC estima que cerca de 40% das transmissões ocorrem antes que a pessoa infectada apresente qualquer sintoma, e que os sintomas levam em média seis dias para começar. Esse período dá aos indivíduos infectados uma janela grande para entrar em contato com outras pessoas — e talvez entrar em uma situação propícia ao “supercontágio”. 

Pesquisadores identificaram diversos fatores que facilitam o “supercontágio”. Alguns são ambientais. Por exemplo,  áreas fechadas com ventilação ruim parecem ser especialmente propícias ao contágio pelo vírus. Uma análise preliminar de 110 casos de COVID-19 no Japão descobriu que as chances de transmissão do patógeno em ambientes fechados era mais de 18 vezes maior que em espaços abertos. E os autores concluíram que espaços confinados poderiam promover eventos de “supercontágio”. (O estudo ainda não foi revisado.) Outro estudo em pré-publicação, conduzido por pesquisadores de Londres, examinou aglomerados de casos de COVID-19 e descobriu que aproximadamente todos estavam em ambientes ou configurações sem circulação de ar. As maiores aglomerações foram encontradas em espaços fechados como casas de cuidado, igrejas, fábricas de processamento de alimentos, escolas, shoppings, dormitórios de trabalhadores, prisões e navios. 

Outro fator desses eventos de supercontágio  é o grande número de pessoas que elas envolvem. Quanto mais indivíduos se reúnem em um só lugar, maior é a oportunidade do coronavírus infectar mais pessoas de uma só vez, diz Meyers. “Se houver  no máximo cinco pessoas, vai ser muito difícil acontecer um evento de super-contágio”, ela acrescenta. Mas conforme aumenta o número do grupo, aumenta o risco de transmissão do vírus a um grupo mais amplo. Um grupo grande também aumenta a chance de que um dos presentes possa estar infectado.  

O tempo também é um fator.  Quanto mais tempo um grupo estiver em contato, maior a probabilidade de o vírus se espalhar entre seus integrantes. Não se sabe ainda exatamente quanto tempo de convivência é necessário para contrair o vírus, diz Syra Madad, uma especialista de patógenos especiais na NYC Saúde + Hospitais. Ela acrescenta que a referência utilizada para a avaliação do risco em seu trabalho de localizar o contágio é de 10 minutos de contato com uma pessoa infecciosa, apesar de o CDC utilizar 15 minutos como referência. Funcionários de serviços essenciais, como caixas de mercados e funcionários de casas de cuidado, interagem com grandes grupos por necessidade e trabalham em situações propícias ao “supercontágio”. Meyers diz que, se queremos conter a COVID-19, temos que encontrar maneiras de proteger essas pessoas  e tornar seus ambientes  de trabalho menos favoráveis à tais eventos. 

O quê as pessoas estão fazendo também importa, pois algumas atividades parecem facilitar o contágio. Todos nós observamos gotículas voando quando alguém tosse ou espirra. Mas o mero ato de falar  emite uma “quantidade tremenda” de partículas, diz o engenheiro químico William Ristenpart, da Universidade da Califórnia em Davis. “Ninguém pensa sobre isso, mas elas estão lá”, ele diz. A equipe de Ristenpart descobriu que a fala emite mais partículas do que a respiração comum. E as emissões também aumentam conforme as pessoas falam mais alto. Respirar fundo durante exercícios também pode ajudar a espalhar a COVID-19. Aulas de danças fitness realizadas em salas pequenas com até 22 estudantes por aula estavam ligadas à 65 casos da doença na Coreia do Sul. Mas aulas de yoga em uma dessas unidades não estavam ligadas a nenhum caso. Um estudo de aglomerações de COVID-19 no Japão encontrou casos conectados a exercícios em academias, festas em karaokê e até conversas em bares, fornecendo evidências futuras de que essas atividades podem aumentar a transmissão. 

Ristenpart e seus colegas ainda não confirmaram se as mudanças na emissão de partículas que eles observaram afetam a transmissão do novo coronavírus. O estudo não mediu o SARS-CoV-2 em si. Mas as partículas transmitidas pelo ar são provavelmente transportadores  importantes de partículas virais. Os cientistas também encontraram evidências intrigantes de que um pequeno conjunto de pessoas pode se comportar como “superemissores de fala” — indivíduos que consistentemente transmitem uma ordem maior de partículas respiratórias que seus pares. “É muito difícil de identificar quem será um superemissor antes que o evento aconteça”, ele diz. “Um dos superemissores era uma mulher jovem e muito pequena. E eu era um cara muito maior e não era um superemissor”. 

A evidência sobre as atividades “supercontagiosas” levou pesquisadores à acreditarem que eles são responsáveis pela maioria das transmissões do novo coronavírus. “Todos os dados que estou vendo até agora sugerem que se você tampar os eventos de “super-ontágio’, a taxa de crescimento das infecções para muito, muito, rapidamente”, diz Scarpino. “Nós observamos em Seattle que houve pelo menos duas introduções [do vírus na cidade] que não levaram a novos casos” — implicando que o vírus pode desaparecer se negadas as circunstâncias de contágio. 

Mas, nos Estados Unidos — onde houve aproximadamente 2.16 milhões de casos e mais de 117,000 mortes — essas situações podem estar se tornando mais comuns.  Estados estão reabrindo serviços e atividades, o que significa que mais pessoas estão entrando em contato umas com as outras em grupos maiores. Então minimizar as condições que permitem a ocorrência dos eventos super-contagiosos será crucial para manter a COVID-19 em cheque. No Japão, os serviços de saúde avisaram as pessoas para evitar três principais situações: espaços fechados com fraca ventilação, espaços lotados e configurações onde as pessoas estão próximas. A habilidade do vírus de infectar não é inteiramente uma propriedade daquele patógeno, diz Cristopher Moore, cientista computacional no Instituto de Santa Fé, que modela eventos de contágio do vírus. “É uma propriedade de como o vírus e a sociedade humana interagem”, ele nota, e isso é algo que nós temos o poder de mudar.

 

Christie Aschwanden

Publicado em 29/06/2020