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Os morcegos não são nossos inimigos

Morcegos nos proporcionam várias coisas positivas, e as viroses que eles carregam em geral só atingem os humanos quando invadimos seu território ou os trazemos para o nosso

Morcegos tem uma péssima reputação. Dos filmes de terror às páginas de tabloides e fantasias de dia das bruxas,  as representações midiáticas e culturais dos únicos mamíferos voadores geraram e reforçaram, por muito tempo, uma imagem amedrontadora que não tem  fundamento. Seu papel evidente como fonte original do vírus SARS-CoV-2, responsável pela epidemia de COVID-19, agravou essa infeliz imagem pública, o que levou a medidas ativas e protestos pedindo o abate das populações de morcego.
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Mas essas  atitudes hostis dificultam a conservação dos morcegos e dos diversos benefícios importantes que eles nos proporcionam. Mas  fazer uma perseguição aos morcegos por conta de uma doença que eles causam poderia muito bem ser um tiro que sai pela culatra. 

Antes de falar nisso, vamos voltar um pouco atrás.

A verdade sobre morcegos e doenças

A verdade central envolvendo  morcegos e doenças é  que eles   realmente conseguem hospedar uma grande variedade delas, incluindo viroses que podem ser mortais quando passam para outros mamíferos como nós. Outros autores abordaram  cuidadosamente o papel direto e indireto que os morcegos possuíram na emergência de doenças como o Ebola, o vírus Nipah e a SARS. Ao invés de refazer isso aqui,  vamos pontuar apenas que pesquisas recentes sugeriram uma razão do porquê de os morcegos serem a fonte de um número assombroso de surtos de doenças. Em resumo, a estresse de vôo que só eles experimentam pode ter sobrecarregado a habilidade dos morcegos em tolerar respostas imunológicas agressivas a certos patógenos, o que os levou a evoluírem em conjunto com violentas viroses. Já os sistemas imunológico mais simples dos mamíferos terrestres  se esforçam para combater esses vírus vilões quando eles entram em seus sistemas. 

Mas antes de descartarmos os morcegos a fim de reduzirmos  o risco de doenças, devemos considerar a rica variedade de benefícios que eles nos proporcionam, incluindo diversas maneiras de nos manterem saudáveis. Morcegos ajudam a regenerar nossas florestas e gerar  fertilizantes. Eles polinizam nossas plantas que dão frutos, de mangas à agaves, num total de mais de 300 espécies de cultivo. Eles também se alimentam de muitos insetos parasitas em plantações  de cacau, algodão, milho e incontáveis outras espécies agrícolas, e sem eles nós teríamos um prejuízo de  mais de 3,7 bilhões de dólares perdidos por ano apenas nos Estados Unidos por conta da perdas na produção. Essas bocas famintas são particularmente mais importantes em países menos desenvolvidos economicamente, onde diversas espécies diferentes oferecem um controle para diversos parasitas sem custo.

Traças e outros insetos são indiretamente benéficos a nossa saúde. As mortes de morcegos nos EUA por conta da síndrome do nariz branco  levaram  a um aumento mensurável na mortalidade infantil em regiões agrícolas por conta do aumento do uso de pesticidas tóxicos para compensar a perda dos insectívoros. Morcegos também se alimentam de vetores de doenças como mosquitos, incluindo o Anopheles, transmissor da malária cuja população vêm crescendo  por terem evoluído para sobreviverem a pesticidas. 

Mas mesmo sem considerar nada disso, optar por caçar morcegos ou fazer qualquer mal a eles, a fim de  evitar futuros surtos de doenças como SARS ou Ebola, é uma ideia  baseada em falsas suposições e que pode, paradoxalmente, levar a um risco maior de doenças. Iniciativas de perseguição a  morcegos para prevenir a raiva no Peru falharam em conter a doença, e podem ter matado em maior proporção  os morcegos com menor probabilidade  de terem transmitido a doença. Em Uganda, uma tentativa de eliminar uma colônia grande de Rousettus aegyptiacus, levou a uma incidência muito maior do vírus Marburg quando o local foi recolonizado por morcegos mais suscetíveis. Morcegos em situação de estresse  pode aumentar o risco da transmissão de doenças; é o caso com o vírus Hendra nos morcegos australianos do tipo raposa voadora vermelha.

Em março, funcionários do governo  da Indonésia ordenaram a apreensão de morcegos que estavam em cativeiro nos mercados. Rumores diziam que funcionários do governo de  Ruanda estavam destruindo colônias de morcegos utilizando mangueiras de incêndio. Essas ações não terão impactos no que se propuseram a ajudar com o atual surto. 

Ainda estamos aperfeiçoando a receita para lidar com a próxima pandemia zoonótica. Certamente, ela incluirá diversas porções de vigilância avançada a doenças e um bocado de melhorias na infraestrutura no sistema de saúde pública. Mesmo com isso, também é preciso misturar esses ingredientes com o requerimento de que paremos de tratar os morcegos como um “outro” sinistro. 

Primeiro, nós precisamos de esforços para a conservação de morcegos selecionados. A passagem de doenças entre diferentes  espécies ocorre quando nós invadimos  o mundo dessas espécies, ou as arrastamos para o nosso. Quando o uso inadequado de recursos naturais em Bangladesh levou os morcegos comedores de fruta Pteropus a visitarem tamareiras, as pessoas involuntariamente beberam o vírus Nirah junto com a seiva da árvore, que costumavam utilizar. Mais comum, viroses de morcegos saltam para “trampolins” vivos, como porcos (vírus Nipah), cavalos (vírus Hendra) ou camelos (MERS – coronavírus parente). Se estiverem em seus habitats nativos, é pouco provável que os morcegos  espalham essas viroses em concentrações tão densas para animais domesticados. 

Se tiverem seus lares preservados, os morcegos terão menos necessidade de virem até os nossos. Uma  restauração  de seus habitats em grande escala poderia diminuir o contato problemático entre morcegos e pessoas, ou entre os animais domesticados, uma vantagem anexa aos esforços de reflorestamento global. Nós podemos conseguir ter ações mais objetivas como estabelecer poleiros artificiais para morcegos e árvores de frutas nativas em configurações apropriadas, reduzindo contatos perigosos, enquanto preservamos os serviços valiosos  que os morcegos nos proporcionam. Mas gerar apoio para isso será muito mais difícil se continuarmos a demonizar os morcegos. 

 Uma consideração maior pelos  os morcegos poderia reforçar os esforços para limitar, ou até mesmo acabar de vez com  os mercado de animais selvagens, até porque essa é outra via  comum pela qual os morcegos são forçados, direta ou indiretamente, a entrar em contato com as pessoas. De fato, um mercado de animais vivos em Wuhan foi o epicentro aparente nas primeiras semanas do surto. O fato de que os morcegos podem não necessariamente ter sido vendidos lá ilustra a necessidade de reprimir  o comércio  de animais silvestres em geral, dada a grande diversidade de espécies  de animais que podem servir como  hospedeiros intermediários. 

No mínimo, precisamos de restrições consensuais para as práticas mais perigosas (como o fim do comércio de animais selvagens, acabar com a caça de uma grande variedade de espécies e prevenir o contato entre animais em cativeiro e morcegos livres). Felizmente, a China aparenta estar avançando muito,  mas impedir um mercado negro requer diminuir a demanda por produtos da vida selvagem, uma tarefa que poderia ser facilitada por um trabalho melhor de imagem pública dos morcegos. 

A segurança  também demanda um esforço contínuo de esclarecer a distribuição, os habitats associados e as transições demográficas das 14 mil espécies de morcegos reconhecidas, sem mencionar as doenças que eles causam. A informação é particularmente limitada na maioria das áreas mais diversas biologicamente do planeta, onde é mais provável que se originem as novas doenças infecciosas. Os pesquisadores têm dificuldades para financiar expedições para coletar esses dados básicos de história natural, principalmente quando a atitude do público em relação aos morcegos é de medo e repugnância do que de respeito e admiração.  

Felizmente, temos novas ferramentas ao nosso dispôr. Métodos modernos de sequenciamento genético começaram a abrir uma janela nos  reinos antes  misteriosos das viroses de morcegos. Exploradores modernos  estão escalando penhascos em Madagascar e escavando cavernas em Serra Leoa para coletar amostras de todos os tipos de fluidos e sólidos de morcegos, e sequenciando o material genético das viroses que eles contém. Alguns estão analisando o risco da doença com base nas estações do ano, ciclos reprodutivos e clima, enquanto outros estão comparando a amostras clínicas de pacientes que apresentaram febre alta mas não obtiveram um diagnóstico para nenhuma doença conhecida (Infelizmente, um dos principais grupos conduzindo este tipo de pesquisa recentemente sofreu o corte de seu financiamento pela atual administração).

  Apesar de enalteceram os esforços dos colegas e tentamos caminhar com nossas próprias iniciativas de pesquisa, também é importante lembrarmos que a maneira que nós apresentamos a nossa ciência também importa. As representações negativas da mídia de morcegos pode surgir diretamente dos artigos em revistas acadêmicas. Nós, cientistas, devemos enfatizar o lado bom junto ao risco, e consistentemente trazer a público a mensagem de que é somente através de conhecer, aceitar e até mesmo celebrar os morcegos que nós poderemos atingir o futuro mais saudável possível.

Timothy Treuer, Ricardo Rocha, Cara Brook

Publicado em 15/05/2020