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Pandemia de COVID-19 gerou crescimento de antissemitismo em vários países

Teorias que responsabilizam judeus pela doença e pelos efeitos econômicos e sociais que ela causou estão avançando com velocidade inédita, diz instituto de pesquisa

Judeus em passeata em Nova York por ocasião em protesto pela morte de George Floyd pela polícia

Não bastasse todas as vidas que ceifou e o impacto na economia global, a atual pandemia de COVID-19 ainda gerou um efeito colateral insuspeito: um recrudescimento do antissemitismo em vários países do mundo. É o que sugere um grupo de pesquisadores do  Centro Kantor para o Estudo do Judaísmo Europeu Contemporâneo, da Universidade de Tel Aviv. Eles publicaram um relatório especial, compilando relatos colhidos em diferentes locais do planeta  entre março e junho.

Segundo o relatório, os relatos dizem que os judeus, o movimento sionista ou o estado de Israel são os responsáveis pela pandemia,  e/ou vão se beneficiar dela. Estas versões são propagadas em sua maioria por extremistas de direita e cristãos e muçulmanos  ultra-conservadores, através de suas próprias mídias em várias línguas, em países da Europa, das Américas e do mundo Muçulmano. Esse novo tipo de antissemitismo, que parcialmente reitera temas  do antissemitismo clássicos, inclui teorias da conspiração junto com difamações medievais, agora renovadas em um formato para o século 21. Por exemplo, um estudo da Universidade de Oxford revelou que 19,1% do público britânico acredita que os judeus causaram a pandemia. 

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Os relatos são provenientes de uma rede internacional de voluntários, vivendo em 35 países, que são treinados para identificar e classificar atos de antissemitismo e acrescentar o material a Base de Dados do The Moshe Kantor sobre antissemitismo. A rede foi estabelecida pelo Centro Kantor por 30 anos e hoje contabiliza 60 participantes. A base de dados é uma coleção, em tempo real, de materiais e recursos sobre tendências e eventos relacionados a antissemitismo contemporâneo, que inclui pesquisas inglesas baseadas em fontes materiais em todas as línguas e formatos incluindo texto, visual e audiovisual. 

   Para Dina Porat, chefe do Centro Kantor, o antissemitismo gerado pelo coronavírus é mais feroz e mais intenso. Ao prosseguir  incessantemente por vários meses, ele reflete um grande nível de ansiedade e medo em muitas populações. Mas é preciso ver a situação de forma mais ampla. “Outros também são acusados de espalhar o vírus: em primeiro lugar, os chineses, depois as antenas 5G e as autoridades que supostamente não estão fazendo o suficiente para conter a epidemia.” 

Boa parte das mensagens antissemitas  vem dos Estados Unidos e de países do Oriente Médio como o Irã, Turquia e a Autoridade Palestina, mas também da Europa e da América do Sul. Nos Estados Unidos, as acusações vêm principalmente dos supremacistas brancos e cristãos ultraconservadores, acusando os judeus em geral e particularmente os judeus ultraortodoxos. No  Oriente Médio os alvos são  Israel, o  Sionismo e o Mossad, por terem criado e espalhado o vírus com a intenção de fazer fortunas vastas com medicamentos e a vacina que já estaria em desenvolvimento.

No mundo ocidental, os principais elementos que divulgam  o discurso antissemita são grupos da sociedade civil com diversas ideologias, enquanto que no Oriente Médio, parte do discurso é colocado em prática pelos regimes em si. 

Para Giovanni Quer, diretor do Centro Kantor, “a onda atual de antissemitismo é sem precedentes porque se espalha rapidamente pelas mídias sociais. Ela  focou primeiro a crise da COVID-19 e depois avançou  rapidamente por conta das mudanças políticas e sociais: apenas alguns dias se passaram entre a crise do coronavírus e a crise social relacionada ao racismo nos Estados Unidos, mas o discurso antissemita permaneceu feroz, com seus proponentes simplesmente adaptando as narrativas antissemitas aos contextos de mudança social”. 

Publicado em 26/06/2020