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Pesquisadores mapeiam cérebro de paciente cega que pode ver objetos em movimento

Após passar por coma e vários derrames, mulher conseguiu recuperar parte da visão

Neurocientistas do Instituto Mente e Cérebro da Universidade do Canadá confirmaram e estudaram em detalhes um caso raro de uma mulher cega capaz de ver objetos – mas apenas se eles estiverem em movimento.

Uma equipe liderada pela neuropsicóloga Jody Culham conduziu o mais extenso mapeamento e análise cerebral de um paciente cego até então, para ajudar a entender a notável visão de uma mulher escocesa de 48 anos, Milena Canning.

Canning perdeu a visão há 18 anos após uma infecção respiratória e uma série de derrames. Meses após o coma de oito semanas que a deixou cega, ela ficou surpresa ao ver o brilho de uma sacolinha cintilante, como um relâmpago verde.

A partir de então, ela começou a perceber, esporadicamente, outras coisas em movimento: o rabo-de-cavalo da filha balançando quando ela caminhava, mas não seu rosto; chuva escorrendo pela janela, mas nada além do vidro; água rodando por um ralo, mas não uma banheira já cheia de água.

O oftalmologista de Glasgow, Gordon Dutton, indicou Canning para o Instituto Cérebro e Mente de Londres, Canadá, onde testes da equipe de Culham incluíram ressonância magnética funcional (fMRI, na sigla em inglês) para examinar em tempo real a estrutura e o funcionamento de seu cérebro.

Eles determinaram que Canning possui uma doença  rara chamada síndrome de Riddoch – em que uma pessoa cega pode conscientemente ver um objeto se estiver se movendo, mas não se estiver parado.

“Ela não possui um pedaço de tecido cerebral do tamanho de uma maçã na parte de trás do cérebro – onde se encontram quase todos os lobos occipitais, que processam a visão”, diz Culham, professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Neurociência da Universidade do Canadá.

“No caso de Milena, acreditamos que houve uma ruptura da via que a fazia enxergar. Mas, em vez de bloquear todo seu sistema visual, ela desenvolveu alguns `caminhos secundários` que podem contornar esse curso e trazer alguma visão – especialmente em objetos que estão em movimento – para outras partes do cérebro “.

Em essência, o cérebro de Canning está realizando desvios inesperados e não convencionais ao redor dos caminhos danificados.

Durante o estudo, Canning foi capaz de reconhecer o movimento, direção, tamanho e velocidade de bolas que rolavam próximas à ela; e enviar comandos ao seu cérebro para que sua mão abrisse, interceptasse e as agarrasse exatamente na hora certa. Ela podia andar ao redor de cadeiras.

No entanto, ela não identificava de forma satisfatória a cor de objetos e só conseguiu detectar se a mão de alguém à sua frente estava com o polegar para cima ou para baixo na metade das vezes.

“Este trabalho pode ser a especificação mais rica já realizada do sistema visual de um único paciente”, diz Culham. “Ela mostrou essa recuperação profunda da visão, baseada em sua percepção de movimento”.

A pesquisa mostra a notável plasticidade do cérebro humano, ao encontrar soluções alternativas após lesões catastróficas. E sugere que as definições convencionais de “visão” e “cegueira” são mais relativas do que se acreditava anteriormente.

“Pacientes como Milena nos dão uma ideia do que é possível e, o que é mais importante, nos dão uma ideia de quais funções visuais e cognitivas andam juntas”, diz Culham.

Para Canning, a pesquisa no Instituto Mente e Cérebro ajuda a explicar mais sobre o que ela percebe e como seu cérebro continua a mudar. Ela é capaz de andar ao redor de cadeiras, pode enxergar um goleiro com uma camisa de futebol brilhante e pode ver o vapor subindo em sua xícara no café da manhã, por exemplo..

“Eu não posso ver como as pessoas normais vêem ou como eu costumava ver. As coisas que estou vendo são realmente estranhas. Há algo acontecendo, meu cérebro está tentando se reconectar ou procurar diferentes caminhos”, diz Canning.

Universidade do Canadá