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Surto de ebola é declarado emergência de saúde pública internacional

Em toda a história da Organização Mundial de Saúde, medida foi adotada apenas quatro vezes. Surto no Congo já dura mais de um ano e ainda pode se espalhar

Sally Hayden / Getty Images

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que o surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC) se tornou uma emergência de saúde pública de caráter internacional. A decisão acompanha o medo crescente de que o vírus possa se espalhar para além das fronteiras do país. 

A declaração é o nível de alarme mais elevado da OMS. Esta é a quinta vez que a agência, um braço das Organização das Nações Unidas (ONU), declarou uma emergência global — uma medida reservada para eventos que representam risco para vários países e que exigem uma resposta internacional coordenada.

Mais de 2.500 pessoas adoeceram e quase 1.700 morreram durante o surto na República Democrática do Congo, tornando-se o segundo pior já registrado. Investigações da OMS sugerem que o vírus começou a se espalhar no leste do país alguns meses antes de o surto ter sido declarado, em agosto de 2018.

“Agora, é hora de a comunidade internacional se solidarizar com as pessoas do Congo”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor da OMS, em uma coletiva de imprensa no dia 17 de julho. 

Preocupação crescente

Ghebreyesus pediu para que países e empresas de todo o mundo mantivessem suas fronteiras abertas para viagens e negócios com a RDC, apesar da declaração de emergência de saúde pública. Fazer o contrário prejudicaria a economia da República Democrática do Congo e também impediria que pessoas das províncias de Kivu do Norte e Ituri, palco de conflitos e onde a ebola está se espalhando, fugissem da violência.

Restringir viagens também pode levar que pessoas no leste do Congo entrem em países vizinhos que estão fora postos de controle oficiais, onde os profissionais de saúde registram os nomes dos viajantes e verificam suas temperaturas.

O Ministério da Saúde da República Democrática do Congo reiterou essas preocupações em um comunicado divulgado depois que a OMS declarou situação de emergência, enfatizando os riscos para “comunidades que dependem fortemente do comércio transfronteiriço para sua sobrevivência”.

Anteriormente, a OMS já havia considerado três vezes declarar emergência na RDC, e rejeitou todas. A decisão recente veio depois de relatos recentes de pessoas infectadas viajando para áreas além da zona do surto.

Em 14 de julho, médicos em Goma confirmaram que um pastor que havia viajado para a cidade de ônibus vindo de Butempo, um ponto central do surto, estava infectado com ebola. Ele morreu dois dias depois. E, em 17 de julho, o Ministério da Saúde do país e a OMS relataram que uma mulher diagnosticada com ebola no Congo havia cruzado ilegalmente a fronteira para Uganda na semana anterior para vender peixes. No período, ela vomitou quatro vezes — um sintoma na ebola. Ela morreu no dia 15 de julho.

Ataques contínuos aos trabalhadores de saúde, incluindo a morte de dois agentes de emergência congoleses em Beni, na semana passada, também influenciaram a decisão da OMS.

“A luta está em andamento há um ano, e o assassinato de dois trabalhadores de saúde da ebola demonstra o risco contínuo devido à situação de segurança”, disse Robert Steffen, epidemiologista da Universidade de Zurique, na Suíça, e presidente do comitê consultivo da OMS, que recomendou a declaração de emergência.

Ajuda necessária

Steffen diz que o comitê também temia que a OMS não tivesse dinheiro e profissionais suficientes para reduzir o surto.

Muitos especialistas em saúde pública especularam que a declaração de uma emergência global levaria os países ricos a contribuir com mais recursos para a luta contra o ebola. “Aplaudo o Dr. Tedros por declarar uma emergência”, diz Lawrence Gostin, especialista em direito da saúde e política na Universidade de Georgetown, em Washington DC. “A menos que haja um aumento real na resposta, temo que [o surto] continue.”

Mas Ghebreyesus enfatizou que a declaração de emergência não é uma ferramenta de captação de recursos. “A OMS não tem conhecimento de nenhum doador que reteve o financiamento porque a emergência não estava declarada”, disse ele.

Amy Maxmen, Nature