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Vacinas contra coronavírus podem não funcionar em idosos

Grupo de pesquisadores dos EUA enfrenta desafio científico para desenvolver vacina para o grupo que mais precisa

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Todos concordam que uma vacina será essencial para parar o avanço global do COVID-19, a doença causada pelo novo coronavírus. Mas Ofer Levy, médico e cientista no Hospital da Criança de Boston, acredita que as vacinas produzidas atualmente não serão úteis para quem mais precisa: os idosos.

“Independente do que estejamos desenvolvendo, temos que garantir que seja algo que vá funcionar para os idosos. Caso contrário, não será útil, e da maneira que as vacinas estão sendo produzidas hoje, não será útil”, diz Levy, um médico infectologista que dirige o Programa de Vacinas Precisas no Hospital da Criança de Boston. Dados iniciais sugerem que as pessoas  mais afetadas pelo vírus são aquelas com mais de 60 anos ou com problemas de saúde pré-existentes como diabetes, doenças cardíacas ou doenças pulmonares. Uma vacina que proteja as  pessoas mais jovens irá diminuir o contágio do vírus, mas obter  uma que proteja as pessoas mais vulneráveis irá salvar vidas, ele diz. 

No oitavo andar do prédio do Instituto de Medicina de Harvard, Levy e seus colegas planejam desenvolver uma vacina para pessoas de todas as idades. Sua estratégia consiste em testar candidatos em uma configuração mais realista e adicionar um adjuvante vacinal que multiplica a eficácia da vacina e permite o uso da menor dosagem possível.

Em compartimentos de freezers mantidos a – 62,2 º C, o laboratório do pesquisador  guarda centenas de amostras de células doadas por pacientes mais velhos que foram tratados no Hospital de Brigham e Mulheres, antes do atual surto. Em um freezer vizinho ficam as amostras recém-chegadas da proteína-viral que a vacina irá atingir. Essas amostras permitirão que Levy e seus colaboradores testem combinações de vacinas e adjuvantes diretamente nas células de pessoas idosas. Por contraste, a maioria das pesquisas em vacinas têm início  com células de ratos jovens. 

Dezenas de laboratórios ao redor do mundo estão produzindo candidatos a vacina, mas ainda é muito cedo para saber quais serão aprovadas . Isso  pode levar de 12 a 18 meses, de acordo com especialistas. O tempo dirá se alguma delas funcionará em pessoas idosas, diz Seth Berkley, Diretor-executivo da Gavi, Aliança da Vacina, uma parceria público-privada que providencia vacinas para quase metade das crianças no mundo. “A realidade é: precisamos de várias opções aqui”, ele diz. 

O programa de Levy no hospital é focado na pesquisa de vacinas contra a gripe, mas passou a trabalhar com  coronavírus a partir de 1 de janeiro, quando David Dowling, um imunologista do grupo seu grupo, ouviu falar de um estranho surto de pneumonia em Wuhan, na China. Quando soube que o vírus afeta principalmente pessoas mais velhas, ele se preocupou. “Eu disse ‘todos vão cometer um grande erro. Eles vão desenvolver uma vacina que funcione na população normal e saudável, e vão se esquecer dos idosos. E todos nós vamos perder um ano’”, diz Dowling. Ele começou a pensar sobre como poderia procurar por uma combinação de vacina e adjuvante para esse novo patogênico. 

 

Impulsionar a imunidade

Dowling diz que o sistema imunológico humano se transforma por completo nas primeiras semanas após o nascimento, e novamente durante a velhice. Então uma vacina que funcione bem em adultos saudáveis pode não funcionar tão bem em pessoas tanto no começo quanto no final da vida. 

Por exemplo, a gigante farmacêutica GlaxoSmithKline desenvolveu uma vacina contra malária com um custo de 2 bilhões de dólares que protegia de 30% a 50% dos adultos e 19% de bebês, diz Dowling. Mas parece que garante menos proteção para crianças com idade abaixo de 6 meses, que têm o maior risco de morrer por malária. Em um estudo de 2016, Dowling e Levy descobriram que os glóbulos brancos do sangue de crianças não escalam uma resposta forte a um adjuvante similar utilizado na vacina contra a malária, sugerindo a necessidade de encontrar adjuvantes mais eficazes  para o começo da vida.

Levy e Dowling estão começando a desenvolver e testar adjuvantes combinados com vários candidatos a vacina contra COVID-19. Levy diz que seu “cardápio” de adjuvantes, dos quais muitos foram testados em seu trabalho com a vacina para gripe, inclui alguns que já foram comprados prontos, alguns que são caseiros (baseado em estudos de análise de pequenas moléculas apoiados pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos) e alguns que estão sendo desenvolvidos por  centros acadêmicos ou empresas, e que pediram que  o grupo avaliasse. 

O grupo no Hospital da Criança de Boston não está só testando adjuvantes. Essa semana, por exemplo, a Dynavax Technologies, uma desenvolvedora farmacêutica de vacina em Emeryville, Califórnia, e a Clover Biopharmaceuticals, uma companhia de biotecnologia da China, se juntaram numa parceria de pesquisa  para estudar a combinação de vacinas e adjuvantes contra a COVID-19. Clover está desenvolvendo uma vacina baseada em proteína contra o coronavírus chamada COVID-19 S-Trimer, e a Dynavax entra com a  perícia técnica e com um adjuvante da companhia, o CpG 1018, de acordo com uma nota de imprensa  conjunta das duas empresas.

Apesar de o projeto de Levy e Crowling ainda estar no estágio de planejamento, eles procuram testar um número vasto de combinações entre vacinas e adjuvantes em células para pessoas idosas. O plano é encontrar combinações promissoras antes de se encaminharem para a fase de teste em ratos, que é geralmente importante para aprovação federal. Existem muitas variáveis envolvidas — quais células do hospedeiro atacar, quais adjuvantes usar, a forma que a vacina é formulada, as diferentes populações que precisam ser endereçadas — e não seria factível testar todas as combinações possíveis na forma de grandes ensaios clínicos. Ao invés disso, avaliar  essas combinações em culturas de células pode  acelerar o desenvolvimento da vacina e diminuir seus riscos, diz Levy. Os pesquisadores esperam eventualmente testar suas combinações de vacinas e adjuvantes em pessoas idosas ao redor do globo para garantir que o produto final irá funcionar na maior quantidade de pessoas possível, ele acrescenta.

 

Outros esforços de vacina

Muitos outros grupos  — incluindo, no mínimo, 40 empresas ao redor do mundo — estão trabalhando em suas próprias vacinas contra a COVID-19. Em Cambridge, Massachusetts, a empresa de biotecnologia Moderna, apoiada pelo NIH (Instituto Nacional de Saúde), desenvolveu um candidato usando a sequência genética do vírus, e já está sendo testada nos primeiros pacientes. A abordagem da Moderna, baseada em proteínas que produzem informação chamadas de RMA mensageiro, ou mRMA, nunca foi empregada em uma vacina aprovada. Mas antes do surto de COVID-19, a tecnologia foi testada em cerca de 1000 pacientes saudáveis, e gerou efetivamente respostas imunológicas contra outras doenças, diz Tal Zaks, chefe da área médica da Moderna, em um artigo publicado no fim de janeiro. Ele acrescentou que foram observados  efeitos colaterais mínimos, e que pessoas mais velhas conseguiram se beneficiar tanto quanto as pessoas mais jovens. “Baseado nos fundamentos da imunologia e nos dados iniciais que tínhamos, minha expectativa é de que funcionará tanto em jovens quando em pessoas mais velhas”,  diz Zaks.

Mas Dowling é cético quanto a possibilidade de uma técnica tão nova  ser utilizada para fabricar os bilhões de doses que serão necessárias em todo o mundo. E ele é menos confiante que Zaks que irá proteger as pessoas mais velhas e vúlneráveis. “Nós podemos ter uma vacina que funcione, mas que não pode ser produzida em grande escala, ou uma vacina que não funciona, mas que pode ser produzida em grande escala”, diz Dowling.

Em outra abordagem, Natasa Strbo, microbiologista e imunologista na Universidade de Miami, vem colaborando com a Heat Biologics na Carolina do Norte, para pesquisar a proteína  gp96, que ativa tanto uma resposta imunológica específica quanto uma mais ampla, inata — especialmente nos pulmões, intestino e órgãos reprodutores: “A própria ativação de respostas imunológicas inatas é o que está a levando ao sucesso”, diz Strbo. Nesse sentido, ela acrescenta, a gp96 atua tanto como uma vacina quanto com um adjuvante, então esperamos que funciona bem em pessoas com mais de 60 anos.

 Levy e Dowling admitem que outras vacinas estão a muito a frente de seus esforços, com algumas já sendo testadas em humanos. Mas os pesquisadores acreditam que seu trabalho será mais efetivo a longo prazo porque deixaram o laboratório com um produto mais efetivo. “O que é mais rápido”, indaga Levy retoricamente, achar uma combinação de vacina e adjuvante em laboratório ou “fazer 50 ensaios clínicos caros e complexos e descobrir depois qual vacina funciona melhor para os mais vulneráveis de nós?”.          

 

Karen Weintraub